Pianista Brasileiro Desaparecido Durante a Ditadura Argentina Tem Corpo Encontrado Após 49 Anos
O mistério em torno da morte do pianista brasileiro Francisco Tenório Cerqueira foi finalmente esclarecido, quase meio século após seu desaparecimento. A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) anunciou, no dia 13 de setembro de 2025, que o corpo do músico foi identificado, encerrando um capítulo trágico na história da repressão durante a ditadura militar na Argentina.
Contexto do Desaparecimento
Francisco Tenório Cerqueira desapareceu no dia 18 de março de 1976, quando se encontrava em Buenos Aires acompanhando os renomados músicos Toquinho e Vinícius de Moraes em uma turnê pela América do Sul. Naquela época, o clima político na Argentina era tenso, com um golpe de Estado prestes a ocorrer, que derrubaria a então presidente María Estela Martínez Perón e instauraria uma ditadura militar que resultaria em inúmeras violências e desaparecimentos.
Identificação do Corpo
De acordo com informações divulgadas pela Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF), Francisco Tenório foi morto a tiros e seu corpo foi enterrado em uma vala comum na periferia de Buenos Aires, sem identificação. O reconhecimento foi realizado através de um processo de datiloscopia, que envolve a comparação de impressões digitais.
O pianista foi assassinado na madrugada do dia 18 de março, logo após deixar o Hotel Normandie, onde estava hospedado. Essa data é especialmente significativa, pois ocorreu apenas alguns dias antes do início da ditadura militar, que se caracterizaria pela repressão violenta contra opositores políticos.
Investigação e Descobertas
A identificação do corpo de Francisco Tenório foi possível graças a um levantamento realizado pela Procuradoria de Crimes contra a Humanidade. Durante o período de 1975 a 1983, diversos cadáveres foram encontrados em vias públicas, mas muitos foram arquivados sem que suas identidades fossem estabelecidas. A CEMDP tem se dedicado a investigar se esses casos estão relacionados a desaparecimentos forçados perpetrados pelo Estado argentino.
Segundo a CEMDP, a confirmação da morte e a identificação do corpo de Francisco Tenório Cerqueira Júnior foram estabelecidas através da comparação de digitais com um cadáver encontrado em um terreno baldio em Tigre, próximo a Buenos Aires, no dia 20 de março de 1976. No entanto, ainda não se sabe se será possível exumar o corpo do Cemitério de Benavidez para análises genéticas.
A Luta pela Memória e Justiça
A CEMDP tem acompanhado de perto o caso de Francisco Tenório, assim como outros relacionados à chamada Operação Condor, uma aliança de ditaduras na América do Sul — incluindo Argentina, Brasil, Chile, Uruguai, Bolívia e Paraguai — que se uniram para perseguir, sequestrar, torturar e eliminar militantes políticos entre as décadas de 1970 e 1980.
Os procedimentos da CEMDP incluem a coleta de dados das impressões digitais de desaparecidos políticos brasileiros em outros países e amostras de sangue de seus familiares para facilitar a identificação de corpos encontrados. Essa metodologia tem como objetivo realizar descobertas como a do caso de Francisco Tenório, que traz à tona a memória de tantos que foram vítimas da violência de Estado.
Suporte às Famílias
Após a notificação da EAAF, a CEMDP entrou em contato com a família de Francisco, oferecendo todo o apoio necessário neste doloroso processo de reconhecimento e busca por justiça. A comissão também se comprometeu a colaborar nas diligências que visam localizar os remanescentes humanos do músico, que foi uma vítima da violência política na América Latina.
Este caso não é apenas uma tragédia pessoal, mas uma lembrança do impacto duradouro da repressão sobre a cultura e a sociedade. Francisco Tenório Cerqueira Júnior deixou um legado significativo na música brasileira, e sua história agora ressoa como um chamado à memória, à verdade e à justiça, que ainda são tão essenciais em um mundo que continua a lidar com os legados da opressão.