08/09/2010
Publicado em: Recortes do Dia | Texto de Carlos Chaparro

Democracia
vilipendiada

Em seus textos, mesmos os mais ligeiros, o professor Renato Janine Ribeiro ajuda-nos a pensar criticamente a realidade em que navegamos. Por isso, sempre estou atento ao que ele escreve ou fala. Hoje, por exemplo, em artigo que assina na Folha de S. Paulo (página 4 do caderno “Eleições 2010”), o professor  Janine Ribeiro lamenta a baixa qualidade da cobertura que a imprensa faz das eleições. E escreve:

“(...) A imprensa abriu mão de cobrir, a sério, as eleições. (...) Os jornais apenas repetem descrições, sem explicar como uma sociedade rica tem uma política tão pobre. (...)  A cobertura eleitoral é função dos institutos de pesquisa, dos escândalos,e, bem pouco, do trabalho dos repórteres. Isso augura mal para  o futuro de uma profissão que um dias quis exercer.”

Tem razão o professor Janine. Como recentemente escrevi neste mesmo espaço, faz mal à democracia a adesão preguiçosa e oportunista do jornalismo à baixaria do jogo eleitoral. E é isso que as redações fazem, quando simplesmente acolhem e espalham, sem qualquer valoração crítica, a intriga política nutrida pela mediocridade dos chefes e chefetes das campanhas partidárias

Assim aconteceu, e continua a acontecer, com o rumoroso caso das várias e sucessivas violações de sigilo fiscal, praticadas por agentes públicos cujo dever era exatamente o de proteger os direitos irremovíveis que criminosamente agrediram.

Convém acentuar que o sigilo fiscal constitui-se segredo por cuja proteção a administração tributária do Estado é responsável, por se tratar de um desdobramento dos direitos de cidadania referentes à inviolabilidade da intimidade e da vida privada (ver Artigo 5º  da Constituição Federal).

Aconteceram, portanto, crimes gravíssimos, intoleráveis, que simultaneamente ferem a normalidade democrática e colocam em causa a indispensável confiabilidade não só das instituições da República, mas também das pessoas que por elas são responsáveis – e todos sabemos quais são.

No âmago da questão, é disso que se trata, da preservação de valores fundamentais da República, e não de reles intriga político-eleitoral a que o assunto foi reduzido pela pequenez da nossa política, dos nossos políticos e dos nossos partidos. Como se tudo não passasse de episódio corriqueiro das rusgas eleitoral em que estão envolvidos.

Desgraçadamente, graças à tacanhice da pauta jornalística, a imprensa contribui, e muito, para esse lamentável empobrecimento ético e moral do debate político. Em vez de promover uma discussão séria sobre o assunto, à altura da gravidade dos crimes constitucionais cometidos, os jornais nos impingem, em manchetes, o jogo miúdo e sujo das frases de efeito – de um lado, amplificando as falas oportunistas de Serra e dos seus, no esforço para colar ao PT e à imagem de Dilma o ônus do crime, como se tudo não passasse de “jogadinha” eleitoral; do outro, fazendo eco das espertezas verbais de Lula e dos seus, empenhados somente na blindagem de Dilma e na minimização dos crimes constitucionais cometidos, reduzindo-os a mero “caso de polícia”.

Diante da gravidade e das implicações do caso, é particularmente lamentável que o Presidente da República em nenhum momento tivesse descido do palanque eleitoral, para o dever de ofício de, como Chefe de Estado, dar à Nação as explicações devidas, com garantias democráticas de proteção aos direitos fundamentais assegurados pelo Artigo 5º d a Constituição.

Posto isto, transcrevo e subscrevo o que o professor Renato Janine Ribeiro escreveu hoje, na conclusão do seu artigo:

“(...) O povo não merece que se destrua a democracia, que a discussão política se reduza a uma crônica policial ou que os vários lados fiquem de birra um com o outro.”


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01/09/2010
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 O “milagre Dilma” (2)

O perigoso poder
da demagogia

Para o enlace das idéias, na continuidade da análise sobre o “milagre” Dilma, transcrevo o parágrafo final do texto anterior:

"Lula é um demagogo espetacular, vitorioso, avassalador, especialmente quando assume o alto de um palanque – e neste momento uso a palavra “demagogo”  no sentido que os gregos originalmente deram ao termo, o de condutor do povo. Saliente-se, entretanto, que o sucesso avassalador do demagogo se deve muito à empatia nata que ele agrega ao exercício político da demagogia. Uma empatia extraordinariamente eficaz, ainda que nem sempre sincera. Mas sobre empatia e demagogia (não só de Lula) escreveremos no próximo texto.   

Falemos, então, de demagogia. Começando, naturalmente, pela atualização  do significado político do termo – até porque não há como separar demagogia das práticas políticas nem dos conceitos que as explicam..

Nas sabedorias e nas ingenuidades da Grécia antiga (séculos XII a.C. – VIII a.C.), demagogos eram os condutores do povo (demos/povo, e gogia/condução). No caminhar da História, porém, a experiência humana de viver logo ensinou aos etimólogos que não passava de utopia o sentido atribuído à palavra, em sua raiz histórica.

Isso – vejam só! – porque desde sempre os líderes populares, em suas práticas políticas, logo caem na tentação de se servirem das massas, em vez de as servirem.

Assim, a verdade da experiência vivida foi agregando à palavra “demagogia” os significados pejorativos que atualmente a marcam. Platão deu contribuição preliminar a esse “enriquecimento polissêmico”, ao sentenciar que demagogo é aquele que chama boas às coisas que lhe agradam e más às coisas que detesta. Aristóteles (Política, livro V) foi além, ao acentuar que o demagogo utiliza a lisonja e os artifícios oratórios para alcançar seus fins, mesmo os ilícitos. Mais tarde, já no século XIX, Lincoln pôs o dedo na ferida maior, colando à palavra “demagogo” o sinônimo “enganador”. E o fez com uma frase-axioma ainda hoje de uso corrente:

”Pode-se enganar algumas pessoas o tempo todo; pode-s enganar todas as pessoas por algum tempo; mas não se pode enganar todas as pessoas o tempo todo”.

Pelos novos sentidos, demagogo é, inevitavelmente, um sujeito oportunista que, com alguma dose de hipocrisia, usa habilidades de oratória para manipular mentes e vontades, em favor dos seus objetivos. Muda de opinião sempre que conveniente, adaptando-se às circunstâncias de tempo e lugar, e delas tirando proveito.

No caso de Lula, dois recortes exemplares:

1) ANTES - Em tempos de FHC (a 9 de abril de 2003), quando era o grande líder da oposição, Lula proclamou de forma exaltada a seguinte “verdade” a trabalhadores do semiárido nordestino: “Antigamente, quando chovia, o povo logo corria para plantar o seu feijão, o seu milho, a sua macaxeira... Agora, tem gente que já não quer mais isso, porque fica esperando o ‘vale-isso’, o ‘vale-aquilo’(...)” – referindo-se aos programas sociais do governo da época. DEPOIS - Quando chegou à Presidência da República, Lula criou o Bolsa-Família e fez dele o carro-chefe do seu governo e a base expandida do seu poder eleitoral.

2) ANTES - Em 1979, no auge da liderança sindical, Lula disse a seguinte frase, num dos encontros que manteve com trabalhadores, durante a sua primeira viagem política ao Nordeste: “É inadmissível que o governo gaste tanto dinheiro em propaganda, quando o que falta é escola e melhores salários para os professores”. DEPOIS - Números do seu governo, divulgados pela imprensa, sem contestações: a) de 2003 a 2009, a Presidência da República, os ministérios e as estatais gastaram R$ 7,7 bilhões com propaganda; b) em 2009, só com a publicidade institucional da Presidência da República, foram gastos R$ 124 milhões.


* (Leia a parte final do texto clicando AQUI)

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27/08/2010
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O "milagre" Dilma (1)

Sem Lula, ela
não teria discurso.
Nem votos.

A contragosto, assisti esta semana à propaganda eleitoral gratuita pela TV. Como detesto mentiras e mentirosos, só mesmo por dever de ofício fiz isso. Sei que nem todos compreenderão essa minha repulsa pela enganação política no horário da caça ao voto. Eis, porém, que o imortal José Sarney (quem diria!), também senador de abastada experiência em tais artes e artimanhas, veio em meu socorro, e me dá razão, no artigo que  nesta sexta-feira assinou na Folha de S. Paulo.

Discorrendo sobre as já indispensáveis pesquisas de opinião e suas decorrências marketeiras, escreveu Sarney:

“O resultado do conjunto das pesquisas orienta as manipulações: hora de bater, de informar, de distorcer, de exaltar, de alegrar, hora da razão, da emoção. (...) Para isso, haja dinheiro (...).”

Não há como contestar, até porque o homem é do ramo. Sabe do que fala.

Apesar disso, ou também por isso, achei de minha obrigação dar uma olhada de observador crítico nos jeitos e trejeitos da campanha pela TV, para depois colocar em texto a minha opinião.

É o que faço, aqui e agora – com prudências que respeitem o direito de cada um à livre decisão de escolher e votar; mas sem medos, nem de idéias e ajuizamentos, nem das palavras.

Começo por dizer que a imprensa se engana, e nos engana, quando esparrama manchetes do tipo “Dilma abre 20 pontos e já passa Serra em SP e RS”,  atribuindo à candidata o vigor eleitoral que já anuncia a possibilidade de vitória no primeiro turno.

Li até, na Folha,  um texto em que Fernando de Barros e Silva coloca Dilma no altar dos grandes campeões de votos, vencedores de eleições presidenciais no primeiro turno: FHC em 1998,  com 53%, e o marechal Dutra em 1945, com 55,4%. Na mais recente pesquisa do Datafolha, Dilma já alcançava 55% dos votos válidos. Com perceptível potencial para crescer ainda mais.

Olhei e escutei atentamente Dilma na televisão, observando o todo da figura, no  desempenho. E anotando detalhes. Pois lhes digo: Dilma Rousseff, essa que a televisão nos mostra, é uma candidata sem carisma e sem retórica minimamente  empolgante. Prolixa, não se expressa com clareza, porque lhe falta oratória sustentada em ênfases bem recortadas. E exibe gestual e semblante marcados por um artificialismo que o intenso treinamento imposto à candidata talvez tenha agravado.

Sei de boas fontes ser merecida a fama de gestora pública competente, que identifica politicamente Dilma Rousseff. Mas, como candidata, nada existe nela que explique esse poder de voto revelado pelas pesquisas.

Como explicar, então, o avassalador crescimento de Dilma Rousseff sobre o cacife eleitoral do tarimbado José Serra, superando-o no seu próprio reduto, onde ele sempre ganhou? Que  milagre ocorreu para, em tão curto período, tanto ter crescido a “onda Dilma”? – onda que, para a articulista Eliane Cantanhede (Folha), já virou tsunami.

Claro, o milagre deu-se. Existe. E tem santo de nome conhecido: LULA.

Luiz Inácio Lula da Silva, esse, sim, como sedutor de mentes alheias, tem tudo o que falta em Dilma candidata: objetivos definidos, fraseado forte, retórica ousada e idéias claras – e pouco importam os tropeços gramaticais ou, até, a veracidade questionável de boa parte do que diz em palanques.

Sem as sedutoras razões de Lula, Dilma simplesmente não teria discurso nem votos.

Quem avança sobre Serra, portanto, não é Dilma, mas Lula. Se vitória houver, será dele, e ele sabe muito bem disso. Assim como sabe que  também será dele, não de Dilma, uma eventual derrota, se, por algum outro “milagre”, tal vier a ocorrer.

Lula é um demagogo espetacular, vitorioso, avassalador, especialmente quando assume o alto de um palanque – e neste momento uso a palavra “demagogo” no sentido que os gregos originalmente deram ao termo, o de condutor do povo. Saliente-se, entretanto, que o sucesso avassalador do demagogo se deve muito à empatia nata que ele agrega ao exercício político da demagogia. Uma empatia extraordinariamente eficaz, ainda que nem sempre sincera,.  

Mas sobre empatia e demagogia (não só de Lula) escreveremos no próximo texto.  
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