 |
 |
 |
| 30/01/2010 |
|
|
Texto de
Carlos Chaparro
|
Cara e sedução
Os jornais, como as pessoas, são conhecidos pela cara que têm. E a “cara que têm”, também à semelhança do que acontece com as pessoas, firma-se e afirma-se pela constância das particularidades estilísticas que a marcam – nas pessoas, coisas como o penteado, a cor do cabelo, a maquilagem, o jeito de olhar, sorrir e vestir; nos jornais, características como o tipo de letra dos textos, a largura de coluna, o formato e a tipologia dos títulos, a habitualidade da localização e do tamanho das fotos, a associação criativa de títulos e fotos, as simetrias e assimetrias das massas visuais, a combinação criativa de verticalidades e horizontalidades para a sugestão dos movimentos de escolha e busca dos textos, por parte dos leitores.
A sedução que o jornal impresso exerce sobre quem o compra e percorre é essencialmente de natureza e estética visual. Tudo no jornal impresso adquire forma e dinâmica gráfica, numa lógica de comunicação em que artes e técnicas do ramo se associam a certos conhecimentos mais ou menos empíricos, de maior ou menor base científica, para o sucesso das interações imediatas.
Hoje, os profissionais e artistas da criação gráfica já dispõem de conhecimentos devidamente experimentados, que lhes permitem tirar vantagens dos condicionamentos que ordenam os acordos estéticos e os costumes culturais que levam o leitor – o “outro” – à escolha, à apreensão e à decodificação das mensagens jornalísticas impressas. Os conhecimentos acumulados e experimentados já permitem saber, com relativa segurança, o que pode ou não funcionar nas soluções gráficas.
Mas como se trata de uma atividade tocada também pela arte, as “leis” da sua lógica tão eficazes são para a obediência quanto para a transgressão. Desde que jamais se perca de vista que a criatividade gráfica não se constitui um objetivo em si mesmo. Leitor não compra jornal para apreciar desenho gráfico, mas para ser bem informado sobre o que lhe interessa. E aí está definido o papel da criatividade gráfica: evidenciar ao leitor o que lhe interessa e produzir estímulos comunicativos que facilitem o encontro com a mensagem.
Falo de uma especialização que a cultura jornalística no Brasil há pelo menos cinqüenta anos chama de diagramação. Se preferirem linguajar mais moderno, substituam o termo por criação gráfica ou desenho gráfico.
Graças a essa arte e a esse campo de conhecimento, sabemos hoje que a criatividade e a sabedoria da criação gráfica para pouco ou nada servem se a preocupação do artista for apenas a de fazer um jornal bonito, para o prazer de “ser visto”. O impacto estético da apresentação gráfica deve estar a serviço do sucesso da interação. A relação com o “outro” tem de ser tão provocadora de expectativas quanto honesta na correspondência às expectativas criadas.
Vale a pena lembrar, ainda que de forma resumida, o que nos ensina o argentino Eliseo Veron, conhecido cientista da linguagem.
Veron propõe que a mensagem jornalística impressa apresenta-se ao leitor na articulação e integração de três séries visuais: as Séries Visuais Verbais, formadas pelas manchas do texto transformado em colunas; as Séries Visuais Para-Verbais, constituídas pelos títulos, cujos valores de objetividade e subjetividade de sentidos e intencionalidades, mais do que na frase, estão na significação visual da definição gráfica; e as Séries Visuais Não-Verbais, pelas quais respondem as fotos, as ilustrações e as sínteses infográficas.
A criatividade competente está na capacidade de articular as séries visuais, em combinações de complementação e/ou integração, para uma atribuição de sentidos jornalísticos. É um diálogo inteligente que não rejeita a emoção, para a estratégia de ativação do interesse e da percepção sem engodos. Nesse diálogo, o que importa é a inteireza da mensagem, preservada e exaltada no tratamento visual que lhe é dado. Para que o “outro” a descubra plenamente e a alcance sem dificuldade – além disso, com prazer.
Sensacionalismo
A propósito de linguagem gráfica, é oportuno tocar a questão do sensacionalismo, tão condenado na generalidade.
Nas convicções correntes do senso comum, está estabelecido que o sensacionalismo é coisa má - frase que já ganhou força mítica de aforismo, pois se trata de um conceito moral transformado em máxima, pela repetição ao longo dos tempos.
Discordo. O sensacionalismo, como qualquer dos muitos ismos em que se divide o mundo das idéias e das ações, não é intrinsecamente mau. Pode até ser benéfico. E pode-se também dizer que dificilmente o jornalismo considerado “sério” alcançará sucesso se não souber utilizar, com criatividade e inteligência, as técnicas do sensacionalismo.
O que se deve colocar em causa não são as formas e as técnicas sensacionalistas, mas as intencionalidades da sua utilização, que devem estar vinculadas aos motivos éticos da atividade jornalística. O sensacionalismo que escamoteia conteúdos, ou os substitui, é uma pilantragem repugnante. O sensacionalismo que chama a atenção para bons conteúdos ajuda a socializar conhecimentos e a ampliar interações transformadoras. A ele recorrem todos os jornais sérios do mundo quando põem em relevo, diariamente, temas e acontecimentos fervilhantes da atualidade..
Alguns geniais antecessores nossos aperfeiçoaram o jornalismo como linguagem de intervenção social, porque fizeram a revolução das formas sensacionalistas. Cito dois nomes: Joseph Pulitzer e William Hearts, editores rivais que no final do século XIX protagonizaram na América a mais sensacional competição entre dois jornais, Pulitzer à frente do New York World, Hearts comandando o Morning Journal. Chegaram a tiragens de um milhão de exemplares. E foi nessa competição que surgiram e se desenvolveram coisas como a titulação horizontal (as nossas manchetes de hoje), a hierarquia de espaços e títulos, as amplas ilustrações, a habilidade para criar ênfases e dar evidência às relevâncias de cada dia, tornando-as sensacionais.
* (Texto originariamente postado em 25/10/2007)
|
|
|
 |
Comente | Envie o link para um amigo (a) |
 |
|
|
|
|
 |
| © 2007 - oxisdaquestao.com.br - O blog do Prof. Chaparro - Mídia, Jornalismo e Atualidade. |
|
| |
|
| |
|
 |
 |
|
|
|
|
|
|
 |
|
|
| |
 |

|

CICV, ABRAJI e OBORÉ abrem inscrições para o novo módulo do Projeto Repórter do Futuro sobre jornalismo em situações de conflitos armados
Estudantes da graduação interessados nesta área do jornalismo podem inscrever-se aqui, gratuitamente, até 20 de setembro. O Encontro de Seleção será dia 25 de setembro, sábado, das 10 às 13h, na Matilha Cultural, em São Paulo. Na ocasião, Felipe Donoso, chefe da delegação do CICV para a Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, fará uma apresentação e em seguida responderá perguntas de todos os inscritos.
|
|
|
|