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| 30/01/2010 |
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Texto de
Carlos Chaparro
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Nem só de talento
se faz um texto
No jornalismo, como na vida, a arte do relato exige a capacidade de observar as manifestações da realidade a relatar. Mas não basta observar; é preciso compreender. Para compreender, é indispensável ir além da informação dos fatos, alcançar a explicação dos contextos. Sem isso, não há como diferenciar o importante do secundário, a aparência da essência.
Um escritor pode ter todo o tempo da vida para escrever seu livro. Mas um jornalista está dramaticamente submetido à premência de prazos. Na informação diária, a partir de certo horário, os prazos se dividem em minutos, na televisão, até em segundos. E quando há pouco tempo para pensar, algumas ferramentas conceituais podem ser úteis.
O jornalista cuja capacidade de escrever mais me impressionou tinha o raro talento de, rapidamente, decidir por onde começar uma reportagem. Era um talento tão aguçado que, freqüentemente, Calazans Fernandes (esse, o seu nome) começava a escrever pelo título, ali colocando a essência do conteúdo, em síntese perfeita.
Calazans foi um grande repórter, em jornais do Rio de Janeiro, Recife e São Paulo.
Também chefiou redações e dirigiu projetos editoriais de grande porte. Na maturidade, dedicou-se à Educação, em especial à tele-educação, dirigindo programas educacionais na TV Globo. Agora, reformado, produz literatura de sabor jornalístico, em que mistura ficção e realidade.
Em meados de 2000, com o pedido de comentários, Calazans Fernandes mandou-me uma cópia da obra em que trabalhava, já em fase de conclusão. Na leitura, redescobri a exuberância do talento que com tanta facilidade leva o autor ao âmago das questões, sejam elas simples ou complicadas. E tentei imaginar qual seria o método de Calazans, para, na sua prosa, chegar com tão rigorosa precisão à definição do que é essencial.
Lembro-me bem: nos tempos do Calazans repórter, quando ele começava a escrever, o texto brotava naturalmente, parecendo jorrar de uma torneira generosamente aberta. Mas a torneira só se abria depois de resolvida a questão central: o que é mais importante? Qual a idéia-eixo?
Para resolver esse problema, Calazans às vezes espalhava montanhas de documentos e anotações pela mesa. Com rapidez mágica, fixava-se num dos papéis, destacava-o do conjunto e dizia: "está aqui".
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Que saber era esse, contido nas práticas jornalísticas de Calazans Fernandes? Ele próprio responde, sem teorias:
- Diante de uma reportagem, a pergunta que se formava na minha cabeça era seguinte: O que é isto? Como eu vou escrever sobre isto? - e a solução do problema tinha que estar no título. Sempre tive a convicção de que se não fosse capaz de resumir um problema, um tema ou um acontecimento num título, também não seria capaz de explicá-lo aos leitores, e se o leitor não entende, o jornalismo é inútil. Depois de resolvido o problema, o texto vinha aos galopes.
Mas Calazans deixa uma advertência preciosa:
- Eu não sei como vocês ensinam isso aos vossos alunos. Mas no meu jeito de pensar jornalismo, as coisas só adquirem importância se forem localizadas no tempo e no espaço. Fora do contexto, nada tem importância.
Será que dá certo esse jeito de lidar com a narrativa jornalística? Vejam o resultado, num parágrafo que recorto de um texto de Calazans Fernades:
"Gaúchos, portugueses, judeus, árabes, norte-americanos, gente dos quatro cantos do mundo deram a sua contribuição. Mas, se não fossem nordestinos como o coronel Childerico José Fernandes de Queiroz, de Pau dos Ferros, da tromba do elefante no Rio Grande, o Acre não seria hoje brasileiro”.
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Como professor de jornalismo, defendo a idéia de que a prática jornalística, nas redações, produz um saber que a Universidade precisa incorporar. E por trás da precisão que dá beleza literária ao texto de Calazans Fernandes há um método que tentarei remontar, a partir das lembranças que guardo do tempo em que, colega de trabalho na mesma redação, e querendo aprender, observava a maneira como ele trabalhava. Vamos lá.
a) Em primeiro lugar, o texto claro, preciso, empolgante e densamente informativo de Calazans Fernandes resultava sempre de investigações exaustivas. Era um incansável fabricante de perguntas, e incansavelmente, ia atrás de quem tinha as respostas. Tinha obsessão por documentos. Cruzava o que ouvia e recolhia nas andanças da rua com o referencial de livros e as revelações guardadas em arquivos de documentos. Ele próprio era um infatigável colecionador de recortes de jornais, onde continua a guardar a memória organizada do seu tempo.
b) A percepção do mais importante, Calazans a alcançava na fase de investigação. Logo nas primeiras conversas e no início do levantamento de dados, ele escolhia a vertente predominante, que deveria dar sentido e organização ao texto. A partir dessa escolha, delimitava o que sabia e o que lhe faltava saber, para compreender e contar a história. Ia então à luta, direcionando a busca para o aprofundamento que lhe interessava, depois da escolha do enfoque principal. E investia na pescaria de detalhes significativos, registrados com precisão inquestionável.
c) A escolha do enfoque principal sempre estava associada à preferência por um conflito, ou pela acentuação de uma leitura do conflito. Essa escolha ou essa acentuação davam rumos tanto à investigação jornalística quanto à estratégia narrativa. Às vezes, a acentuação se dava pela leitura ideológica do conflito, em outras, pela leitura política, social, econômica, cultural ou ética. Qualquer boa história jornalística pode ter várias dessas leituras, e Calazans optava por uma, como predominante e ordenadora do texto. Na prática, usava um ferramental de percepção e atribuição de significados que funciona. E que estimula a criatividade jornalística.
O resto é talento, e talento não se ensina. No máximo, educa-se.
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* Texto publicado originariariamente no livro CHAPARRO, Manuel Carlos, Linguagem dos Conflitos, MinervaCoimbra, 2001 - pp. 197-199.
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Sobre Calazans Fernandes,
vale também a pena saber...
Filho de José Calazans Fernandes e Antônia Augusta Fernandes, Calazans nasceu na cidade de Marcelino Vieira (RN) e mudou-se para Mossoró para estudar no Seminário Santa Terezinha. Mais tarde, foi para o Rio de Janeiro (RJ) onde estudou Filosofia. Começou no Jornalismo em 1948. E no jornalismo teve carreira brilhante ao longo da década de 50, com passagens marcantes pelo Diário Carioca, Diário da Noite e Jornal do Brasil, no qual foi repórter premiado (ganhou um Prêmio Esso) e chefe de reportagem.
Já na década de 60, com pouco mais de trinta anos, Calazans Fernandes deixou as redações para assumir a Secretaria de Educação e Cultura do Rio Grande do Norte, na gestão de Aluízio Alves. Foi ele o responsável pela implantação do "Método Paulo Freire”, de alfabetização de adultos em 40 horas. Na ocasião, a cidade de Angicos (RN) foi a escolhida e seus moradores aprenderam a ler em quarenta horas. Veículos de comunicação de todo deram luz ao projeto.
Após o sucesso de Angicos, voltou ao jornalismo, na Folha de S. Paulo, onde, entre 1966 e 1968, montou e dirigiu um projeto de suplementos especiais, sobre grandes temas da realidade brasileira. Foi, provavelmente, o mais importante projeto de investigação jornalística na história da Imprensa brasileira, que a pesquisa acadêmica deveria recuperar e analisar.
Calazans Fernandes foi, ainda, um dos participantes da criação da Fundação Roberto Marinho, ligada à Rede Globo. O Telecurso, método de ensino à distância utilizado até hoje, foi uma de suas criações. O jornalista esteve à frente do Departamento de Educação da Fundação, de 1975 a 1992.
Como escritor, Calazans teve dois livros publicados: 40 Horas de Esperança. O método Paulo Freire: politíca e pedagogia na experiência de Angicos (São Paulo, 1994, pela Editora Ática); e O Guerreiro do Yaco: Serra das Almas (Natal, Fundação José Augusto, 2002).
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| Comentário por
Bruno Galasse
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A morte, como você mesmo diz, acaba por ser apenas uma passagem diante da grandeza de fatos e histórias que se pode contar de pessoas como Calazans. Quem dera podermos ter boas memórias de todos que encontramos durante nossa estadia aqui. Não posso me esquecer do livro de Cortela cujo título é "Qual é a tua obra?", inspirado na pergunta: Quando você se for, o que vai ficar? Resta-nos, diante de exemplos tão brilhantes, perguntar-nos que vida nós queremos deixar para que contem a outros, quando partirmos. Abraço!
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| Comentário por
Fatima Fernandes
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| E importante conhecer a historia de sucesso deste homem nordestino que muito ouvi meus familiares falarem, imagino a capacidade de criação historica, linguistica com que enunciava suas empolgantes noticias, sempre o admirei muito, mesmo sem conhecelo, sentimos orgulho da pessoa que foi e com certesa será um imortal diante de suas conquistas e seus talentos.
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| Comentário por
Rosângela Maria Pessanha de Souza
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Só em saber que este Calazans tinha algo em comum com Pauloo Freire, já imagino o mesmo como tudo isso e mais alguma coisa. Que linhas lindas você deu ao Calazans, Chaparro.
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CICV, ABRAJI e OBORÉ abrem inscrições para o novo módulo do Projeto Repórter do Futuro sobre jornalismo em situações de conflitos armados
Estudantes da graduação interessados nesta área do jornalismo podem inscrever-se aqui, gratuitamente, até 20 de setembro. O Encontro de Seleção será dia 25 de setembro, sábado, das 10 às 13h, na Matilha Cultural, em São Paulo. Na ocasião, Felipe Donoso, chefe da delegação do CICV para a Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, fará uma apresentação e em seguida responderá perguntas de todos os inscritos.
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