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Cortes e Recortes

  • Despedida

    Publicado por Carlos Chaparro em 25 de junho de 2018

    A existência física de  José Marques de Melo
    esgotou-se aos 75 anos, dia 20-06-2018.
    Na mesma data, e logo que soube
    do seu falecimento, escrevi em jeito de carta,
    e postei nos meus espaços do Facebook,
    o texto que abaixo transcrevo.

     

    Conversa com
    MARQUES DE MELO

    Querido amigo:

    Recebi hoje a notícia da tua morte. Um infarto fulminante te levou para outra dimensão da VIDA. E faço questão de acentuar a palavra VIDA por não acreditar na morte. Sim, meu amigo: para mim não existe o processo da morte. O que existe é o processo da vida, do qual o falecimento físico faz parte. 

    E porque para mim a morte não existe, faço também questão de pedir licença para te usar como interlocutor nesta “Janela de Diálogo”, que por coincidência hoje inauguro no Facebook, como espaço de conversas abertas sobre JORNALISMO, área do conhecimento que muito te deve.

    A convicção racional que me leva a descrer da morte conduz-me, também, à evidência de que na morte, e com ela, a vida se prolonga. O teu próprio exemplo me dará razão. Usaste o tempo e os dons da existência física para construir e reelaborar VIDA. E porque assim foste e fizeste, vivo continuarás – nos efeitos da obra realizada e nas multiplicadoras descendências genéticas e intelectuais.

    No teu caso, amigo Zé, descendências herdeiras do conhecimento por ti produzido e organizado no muito que pensaste, escreveste e disseste. Mas herdeiras, também, dos compromissos que assumiste e nos ensinaste a assumir, em favor dos valores humanistas da democracia.

    Por caminhos de concordâncias e divergências, tu me fizeste um dos herdeiros. E como teu herdeiro de saberes e responsabilidades, faço questão de transcrever parte de um texto que sobre ti no meu blog postei, a 25 de fevereiro de 2016. Naquela data, a propósito do Prêmio Iberoamericano de Teoria da Comunicação, a ti outorgado, assim escrevi, em tom de conversa entre nós: 

    “O prêmio atribuído homenageia em ti não apenas o cientista e o líder científico, produtor e organizador de conhecimento, mas também o persistente construtor da hoje vigorosa identidade institucional da área de Comunicação – no Brasil e nos espaços iberoamericanos.”

    “O prêmio que vais receber, amigo José Marques, chega no momento ápice desse processo, já que, na plenitude da maturidade intelectual, além de seres presidente de honra da Intercom (entidade que nasceu com o teu DNA e o conserva), ocupas atualmente a presidência das duas mais representativas entidades da área: a Federação Brasileira e a Confederação Ibero-Americana de Associações Científicas de Comunicação.”

    “Penso, porém, que o mérito dessa atuação de liderança não deve ofuscar a relevância científica da tua extensa produção intelectual, como pesquisador e pensador da área de Ciências da Comunicação. Tudo resultando em textos publicados – dezenas de livros, centenas de artigos, milhares de palestras e conferências.”

    “O conjunto da obra constitui, sem dúvida, o nosso mais importante acervo organizador do conhecimento, na área da Comunicação. Portanto, uma bibliografia de referência essencial.”

    “Mas faço questão de recortar, no conjunto da obra, os teus estudos sobre Jornalismo, espaço especializado no qual prioritariamente te situas. A esses estudos devemos, sem dúvida, avanços irreversíveis na descoberta e no entendimento das complexidades agregadas ao Jornalismo pelas modernas tecnologias e por suas decorrentes e revolucionárias transformações socioculturais.”

    “O livro Jornalismo – Forma e Conteúdo, de 2009, é uma bela sinopse da vasta contribuição de ideias dada por ti aos estudos do Jornalismo. Nele, estão claramente demarcados os itinerários intelectuais, políticos e culturais do professor, do pesquisador e do pensador de jornalismo José Marques de Melo, incansável provocador de controvérsias.”

    “Embora com fortes traços autobiográficos, é, na essência, um livro de ideias. E nessa faceta da obra te encontramos e identificamos – porque, sendo um livro de ideias, ele te expõe e te coloca em lugar próprio, acima das circunstâncias do tempo.”

    *****
    Amanhã, irei ao Cemitério Morumbi. Em jeito de despedida, te direi: “Descansa em paz, amigo! – e zela por nós, os herdeiros, para que nada de ti se perca.” 

    No mais, prometo releituras regulares dos teus textos, para novas e renovadas conversas de aprendizado. 

    Até amanhã!

    Carlos Chaparro

     

  • Um equívoco chamado imparcialidade

    Publicado por Carlos Chaparro em 23 de fevereiro de 2018

    Certa vez, já lá se vão alguns anos, ao gravar depoimento para um vídeo sobre comunicação institucional, quase escandalizei os entrevistadores ao rejeitar a crença generalizada de que o jornalismo deve ser imparcial.

     

    Olhos esbugalhados, exclamaram eles: “Como?!”

     

    Tive de me esforçar para sustentar uma outra crença, menos generalizada, mas que é a minha: a palavra-chave da confiabilidade do jornalismo não é imparcialidade, mas independência, sem a qual é impossível fazer jornalismo crítico e honesto. E lá comecei a demonstrar, ou pelo menos o tentei, como os sabotadores e os aproveitadores da credibilidade jornalística se empenham em minar a independência de redações e jornalistas, com artifícios malandros que freqüentemente glorificam a imparcialidade.

     

    Por independência se entende a capacidade de se ser livre de qualquer dependência. E resistente a qualquer sujeição, salvo as impostas pelos compromissos e valores éticos que organizam os ideários da sociedade a que se serve.

     

    A imparcialidade é a virtude que dá, a quem a possui, a capacidade de olhar e avaliar desapaixonadamente, com neutralidade, os fatos e as ações dos respectivos intervenientes. Trata-se de virtude talvez importante para algumas profissões e circunstâncias, até por implicar uma certa noção do que é justo e reto. Mas é também a virtude de quem não toma partido em conflitos, submisso, portanto, ao que pode ser entendido como o dever da indiferença.

     

    Se a objetividade, como tantos querem, fosse no jornalismo uma estratégia possível, ou mesmo desejável, a imparcialidade seria, sem dúvida, virtude essencial. A meu entender, porém, a objetividade não faz parte do método jornalístico. O que integra o método jornalístico é a precisão, tão importante no observar e no registrar da materialidade dos fatos, quanto na escolha subjetiva de critérios e razões para as depurações narrativas.

     

    Além do mais, como ser imparcial diante da fome, do desemprego, do desamparo social, do analfabetismo, da roubalheira, do uso abusivo das benesses do poder, dos conceitos e preconceitos que esmagam minorias e excluídos?

     

    De pouco serve, pois, essa virtude a um ofício, o jornalismo, inexoravelmente submetido à obrigação discursiva de recortar, valorar, mostrar e exaltar o mais relevante no acontecido – e ao mais relevante se chega pela subjetividade de escolhas e ajuizamentos de quem exerce o ofício em função das razões éticas que lhe cão dignidade. Nnão pelas ruelas simétricas e frias da objetividade imparcial.

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