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Cortes e Recortes

  • Reflexão sobre as eleições de 2018

    Publicado por Carlos Chaparro em 14 de outubro de 2018

    Na parte já resolvida das eleições de 2018, a da composição do Congresso, tivemosmuma votação  importante e de ótimas surpresas, a principal delas o pequeno vendaval de renovação de rostos e perfis políticos. Mas o que mais me surpreendeu e agradou foi a novidade do “mandado coletivo”, uma promissora experiência que reinventa conceitos e práticas de democracia. 
    Apesar de se ter manifestado em apenas dois Estados (São Paulo e Pernambuco), a experiência dos mandatos coletivos é uma ótima compensação para o desastre de no segundo turno nos vermos envolvidos no reacionário paradigma da velha retórica ideológica que nos propõe uma escolha entre a “esquerda” e a “direita”. E isso, tanto na eleição presidencial quanto na disputa para alguns governos estaduais,
    Para me fazer entender, transcrevo, a seguir, um texto que há mais de um ano e meio postei neste blog.

    Aos eventuais interessados na reflexão, proponho que leiam e tirem as vossas próprias conclusões.
    *************
    (TEXTO DE CARLOS CHAPARRO, PUBLICADO A 17 DE JANEIRO DE 2017)

     

    “Quanto mais olho e tento entender as aceleradas mutações nas estruturas e nas relações sociais que movem o mundo globalizado de hoje, mais me convenço de que, corroída pela velhice de quase dois séculos e meio, ficou decadente, superada e reacionária essa rotulagem de “esquerda” e “direita”, que alguns insistem em usar para classificar e dividir escolhas ideológicas e de militância.” 


    “Rotulagem velha e superada, sim, e não apenas pela derrubada dos muitos muros que, depois da Assembleia dos Estados Gerais, em 1789 (onde e quando teve origem o paradigma), já dividiram territórios e espaços de poder, inclusive nas fronteiras burras que hierarquizavam áreas do conhecimento.”
    “Velha e superada também porque, pelo menos nos extremos radicais dessas manifestações encarquilhadas, onde elas existem, os modos esquerdista e direitista de exercer o poder assemelham-se em métodos, fundamentos e hipocrisias.“
    “À guisa de ilustração, permitam-me algumas perguntas:”
    “– A implacável censura salazarista e a policialesca censura cubana ou chinesa, exatamente iguais em justificativas e formas, devem ser consideradas abusos de poder da direita ou da esquerda?”
    “– A prisão ilegal e o assassinato de adversários políticos, que continuam a ocorrer em países ditatoriais de vários matizes ideológicos, são procedimentos de esquerda ou de direita?”
    “– A corrupção, o mensalão e o petrolão são ladroeiras da esquerda ou da direita?”
    “– A honestidade política, se existe e onde existe, é virtude exclusiva da esquerda ou da direita?”
    “– E a fraude eleitoral, a manipulação de informações e consciências, a mentira dos discursos partidários, a propaganda enganosa paga com dinheiro público – são práticas de esquerda ou direita?”
    “– A doutrina dos direitos humanos, de acordo com a qual todos somos igualmente dignos e livres desde o nascimento, é avanço civilizacional da esquerda ou da direita?”
    “– E a civilização, como produto da cultura, é um bem da direita ou da esquerda?”
    “As perguntas ficam aí, para as respostas que cada um e cada uma queiram encontrar na verdade da consciência e na lucidez da inteligência. Penso, porém, que já passou da hora de substituir essa bobagem de classificar e organizar em guetos de direita e esquerda as ideias e escolhas do agir humano.”
    “Afinal, a experiência humana de viver já nos deu uma tábua de valores universais, dentro da qual podem e devem caber todas as diferenças e divergências.”
    “A coerência ética da Declaração Universal dos Direitos Humanos assenta em nove valores: Paz , Justiça, Igualdade, Liberdade, Fraternidade, Dignidade, Solidariedade , Democracia e Proteção Legal dos Direitos. A partir desses valores, e em função deles, é possível conceber e materializar modelos justos, éticos, humanistas, de governar e ser governado.”
    “Até as segmentações religiosas cabem aí. Porque, como o papa Francisco já disse, Deus não é católico. E eu acrescento: nem evangélico; nem judaísta; nem islamita.”

    ******************
    E tenho dito.

  • Despedida

    Publicado por Carlos Chaparro em 25 de junho de 2018

    A existência física de  José Marques de Melo
    esgotou-se aos 75 anos, dia 20-06-2018.
    Na mesma data, e logo que soube
    do seu falecimento, escrevi em jeito de carta,
    e postei nos meus espaços do Facebook,
    o texto que abaixo transcrevo.

     

    Conversa com
    MARQUES DE MELO

    Querido amigo:

    Recebi hoje a notícia da tua morte. Um infarto fulminante te levou para outra dimensão da VIDA. E faço questão de acentuar a palavra VIDA por não acreditar na morte. Sim, meu amigo: para mim não existe o processo da morte. O que existe é o processo da vida, do qual o falecimento físico faz parte. 

    E porque para mim a morte não existe, faço também questão de pedir licença para te usar como interlocutor nesta “Janela de Diálogo”, que por coincidência hoje inauguro no Facebook, como espaço de conversas abertas sobre JORNALISMO, área do conhecimento que muito te deve.

    A convicção racional que me leva a descrer da morte conduz-me, também, à evidência de que na morte, e com ela, a vida se prolonga. O teu próprio exemplo me dará razão. Usaste o tempo e os dons da existência física para construir e reelaborar VIDA. E porque assim foste e fizeste, vivo continuarás – nos efeitos da obra realizada e nas multiplicadoras descendências genéticas e intelectuais.

    No teu caso, amigo Zé, descendências herdeiras do conhecimento por ti produzido e organizado no muito que pensaste, escreveste e disseste. Mas herdeiras, também, dos compromissos que assumiste e nos ensinaste a assumir, em favor dos valores humanistas da democracia.

    Por caminhos de concordâncias e divergências, tu me fizeste um dos herdeiros. E como teu herdeiro de saberes e responsabilidades, faço questão de transcrever parte de um texto que sobre ti no meu blog postei, a 25 de fevereiro de 2016. Naquela data, a propósito do Prêmio Iberoamericano de Teoria da Comunicação, a ti outorgado, assim escrevi, em tom de conversa entre nós: 

    “O prêmio atribuído homenageia em ti não apenas o cientista e o líder científico, produtor e organizador de conhecimento, mas também o persistente construtor da hoje vigorosa identidade institucional da área de Comunicação – no Brasil e nos espaços iberoamericanos.”

    “O prêmio que vais receber, amigo José Marques, chega no momento ápice desse processo, já que, na plenitude da maturidade intelectual, além de seres presidente de honra da Intercom (entidade que nasceu com o teu DNA e o conserva), ocupas atualmente a presidência das duas mais representativas entidades da área: a Federação Brasileira e a Confederação Ibero-Americana de Associações Científicas de Comunicação.”

    “Penso, porém, que o mérito dessa atuação de liderança não deve ofuscar a relevância científica da tua extensa produção intelectual, como pesquisador e pensador da área de Ciências da Comunicação. Tudo resultando em textos publicados – dezenas de livros, centenas de artigos, milhares de palestras e conferências.”

    “O conjunto da obra constitui, sem dúvida, o nosso mais importante acervo organizador do conhecimento, na área da Comunicação. Portanto, uma bibliografia de referência essencial.”

    “Mas faço questão de recortar, no conjunto da obra, os teus estudos sobre Jornalismo, espaço especializado no qual prioritariamente te situas. A esses estudos devemos, sem dúvida, avanços irreversíveis na descoberta e no entendimento das complexidades agregadas ao Jornalismo pelas modernas tecnologias e por suas decorrentes e revolucionárias transformações socioculturais.”

    “O livro Jornalismo – Forma e Conteúdo, de 2009, é uma bela sinopse da vasta contribuição de ideias dada por ti aos estudos do Jornalismo. Nele, estão claramente demarcados os itinerários intelectuais, políticos e culturais do professor, do pesquisador e do pensador de jornalismo José Marques de Melo, incansável provocador de controvérsias.”

    “Embora com fortes traços autobiográficos, é, na essência, um livro de ideias. E nessa faceta da obra te encontramos e identificamos – porque, sendo um livro de ideias, ele te expõe e te coloca em lugar próprio, acima das circunstâncias do tempo.”

    *****
    Amanhã, irei ao Cemitério Morumbi. Em jeito de despedida, te direi: “Descansa em paz, amigo! – e zela por nós, os herdeiros, para que nada de ti se perca.” 

    No mais, prometo releituras regulares dos teus textos, para novas e renovadas conversas de aprendizado. 

    Até amanhã!

    Carlos Chaparro

     

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Curso de jornalismo – aula 1

Aula 1 - Fundamentos introdutórios

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