24/07/2010
Publicado em: Postigo do Diálogo

Vale a pena
escolher Jornalismo?

Essa a pergunta que
angustia Giovanna Melo,
às vésperas de escolher
uma carreira.
Vamos conversar sobre isso?

As férias de meio do ano esgotam-se em mais alguns dias. E a volta às aulas será particularmente emocionante para os alunos que neste semestre concluem o ensinam médio. São milhões os jovens brasileiros concluintes do curso secundário que agora entram na reta final da luta pelo sonho de ingressar numa universidade  – e sob intensa pressão. Muitos deles ainda terão de enfrentar e superar um período de angustiantes dúvidas quanto à escolha a ser feita; e, depois, terão pela frente a difícil competição por uma vaga no ensino superior.

Foi esse quadro de emoções e pressões que levou a jovem Giovanna Melo a me escrever. Ela é de São Paulo e estuda no Colégio Adventista Ellen G. White. E eu a trago a este Postigo aberto ao Diálogo. Assim, conversando publicamente com ela, estendo a conversa a tantos outros jovens que, como Giovanna, sonham ser jornalistas, mas hesitam na escolha, tantas ainda são as dúvidas quanto à carreira.

Em seu e-mail, Giovanna expõe as suas dúvidas com coragem e precisão. E eu lhe pedi licença para tornar pública a sua consulta porque, neste Postigo aberto, poderei ajudar outros estudantes, sei lá quantos, que vivem drama semelhante.

Para começo de conversa, Giovanna (e a conversa terá de ser longa),vamos ao seu e-mail, que tomo a liberdade de resumir:

Termino este ano o ensino médio, tenho 17 anos, e estou naquela fase de dúvidas sobre meu futuro. Resolvi olhar alguns sites que falam sobre o curso de Jornalismo e como ser um bom jornalista. E cliquei em um blog onde li uma de suas frases sobre o curso de Jornalismo, e me interessei muito. Adoro ler e escrever, minhas notas em redação são as melhores, além de ser do signo de gêmeos, que tem como característica a comunicação. Minhas dúvidas são: - Como me destacar na área do Jornalismo? Como conseguir ter uma estabilidade financeira nessa profissão? Será que eu nasci para ser jornalista?

Às duas primeiras perguntas, é fácil responder, Giovanna: para conquistar sucesso e dinheiro na profissão, é preciso ser bom jornalista. Mas você comete um equívoco ao atribuir tanta importância à estabilidade financeira e ao seu sucesso pessoal. Na sua idade, quando o que mais importa é definir um ideal que dê rumo ético à vida, ganhar dinheiro e conquistar prestígio não devem ser objetivos prioritários. A estabilidade financeira e o sucesso virão, mas por decorrência da qualidade das suas escolhas e da sua entrega à profissão escolhida. 

Portanto, Giovanna, a pergunta essencial é a terceira: Será que eu nasci para ser uma jornalista?

Como está dito no seu e-mail, Giovanna, só você poderá encontrar a resposta. Mas, para ajudá-la, proponho que passemos primeiro por duas outras questões, estas, sim, decisivas para uma escolha lúcida:

- O que é Jornalismo?
- O que é ser jornalista?

Não são questões fáceis. No plano da experiência, da vivência prática, todos sabemos o que é Jornalismo e o que é ser jornalista. Afinal, lemos jornais, assistimos telejornais e nos beneficiamos diariamente do trabalho dos jornalistas, que nos informam e explicam os fatos da atualidade que nos interessam. É essa informação sobre a atualidade que nos ajuda a organizar as nossas relações com o mundo circundante – e, de alguma forma, já começamos a responder às duas perguntas preliminares. 

O Jornalismo é, portanto, atividade essencial na sociedade moderna. Para o Jornalismo convergem, e por ele se socializam, as informações, as emoções, os saberes, os conflitos, as expectativas, as notoriedades e os mitos do tempo presente que interessam à vida e à sobrevivência das pessoas.

A dinâmica social é uma articulação complexa entre sujeitos sociais organizados – por exemplo, empresas, associações de todos os tipos, partidos políticos, igrejas, grupos culturais, grupos transgressores, organizações governamentais e não governamentais, sindicatos etc., etc.. Esses sujeitos sociais organizados detêm e exercem poderes próprios, nas esferas das relações sociais em que existem e atuam.

Neste nosso mundo atual, nutrido e movido a informação e a conhecimento, o poder dos sujeitos sociais organizados manifesta-se, principalmente, pelos acontecimentos (fatos, falas e saberes) noticiáveis que cada um deles produz, nos cenários de conflito em que agem – cenários e conflitos políticos, culturais, econômicos, religiosos, acadêmicos, científicos, ambientais, tecnológicos, esportivos, militares, geográficos etc.. E é no Jornalismo, em suas aptidões de linguagem confiável, veraz, e no seu poder de difusão, que se concentram, hoje, as possibilidades mais amplas e eficazes de os sujeitos sociais organizados realizarem com sucesso intervenções transformadoras na realidade. São eles os protagonistas da narração jornalística, cabendo ao jornalista o papel de narrador comprometido com a veracidade dos seus relatos e com as razões éticas da sociedade.

Podemos até dizer, Giovanna, que está na NOTÍCIA a energia vital que move este nosso mundo globalizado pelas tecnologias de comunicação. 

No mundo informacional, movido a informação e a conhecimento, não está na materialidade dos acontecimentos o poder que transforma ou pode transformar as relações sociais e a vida das pessoas. O poder transformador  que produz a contínua reelaboração do presente está nos conflitos que o vigor da difusão noticiosa faz aflorar. 

Esse é, a meu ver, o papel do Jornalismo, nas suas aptidões de linguagem narradora e argumentadora: relatar, valorar e difundir os fatos da atualidade, não pelo que são, mas pelo que significam. E ao atribuir valor e significado aos fatos e às falas dos respectivos protagonistas, o Jornalismo dá expressão pública ao agir discursivo dos sujeitos sociais, em seus movimentos, convergentes ou divergentes, de afirmação e/ou defesa de ideais, interesses e projetos. Nesses movimentos dos sujeitos sociais, e em suas ações, luta-se por poder, dinheiro, espaço, prestígio, mercados, idéias, bens e mentes. Há os que lutam para que as coisas mudem, e os que lutam para que as coisas não mudem – e tudo converge para o espaço e a eficácia socializadora da Notícia.

Daí, a importância do Jornalismo, como linguagem narradora socialmente confiável e espaço público dos conflitos que interessam à idealização ética das relações sociais.

Por decorrência, Giovanna, o jornalista deve ser um profissional tão competente no domínio das técnicas jornalísticas de narrar e argumentar, quanto fiel às razões de ser da sua atividade, que vêm a ser as razões éticas da própria Sociedade. Com o dever muito particular de jamais usar as artes e o poder de convencimento da profissão para enganar os outros – e a isso eu chamo de honestidade intelectual.

Para encerrar, Giovanna, e acreditando que Jornalismo será a sua escolha, deixo-lhe aqui a recomendação de não ingressar na Universidade sem antes ler dois documentos, aqui já “linkados”: a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a proposta de Novas Diretrizes Curriculares para o Curso de Jornalismo (elaborada por uma comissão de especialistas presidida pelo professor José Marques de Melo).

São leituras que a ajudarão a compreender e a assumir o Jornalismo como ideal e profissão.

Votos de boa escolha! E de boa sorte!

Carlos Chaparro
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18/06/2010
Publicado em: Postigo do Diálogo

O abraço fraudulento

Caro Heródoto Barbeiro:

Abro-lhe hoje este “Postigo do Diálogo”, para, em jeito de desagravo, me solidarizar com você, exatamente no dia em que está sendo lançado no Cine Belas Artes, de São Paulo, um documentário (“O abraço corporativo”) que, mesmo sob a capa de boas intenções, ofende a sua dignidade de jornalista do rádio e  da TV, e espezinha a respeitabilidade que você agregou ao seu nome e à sua imagem profissional, ao longo de uma carreira marcada pelo respeito às responsabilidades sociais e culturais da profissão. 

Embora, prezado Heródoto (foto), poucas vezes tenhamos nos encontrado e conversado, conhecemo-nos há já algumas décadas – desde quando, ainda nos anos oitenta do século passado, você generosamente se dispôs a ir à ECA-USP conversar sobre radiojornalismo com um grupo de alunos meus. Mas antes disso, eu já acompanhava o seu trabalho no radiojornalismo, o que continua a acontecer - agora também, e de modo especial, no telejornalismo.

Essa fidelidade de ouvinte e telespectador indica o grande apreço que tenho pela qualidade e pela seriedade do seu trabalho. Por isso me senti também ofendido quando, como convidado, assisti ao referido documentário em uma apresentação preliminar, quando ainda lhe faltavam alguns detalhes de acabamento.

Mesmo que a intenção dos produtores não tenha sido essa, no documentário, você é vítima de uma fraude, altamente ofensiva. E agora que o documentário se torna coisa pública, solidarizo-me também publicamente com você, porque, repito, ao vê-lo ludibriado no documentário, me senti também ofendido. E estendo a solidariedade aos muitos editores, repórteres e pauteiros, que, como você, foram enganados pelos mentirosos do tal abraço corporativo. Do mesmo modo, lamento que a difusão jornalística de um conteúdo fraudulento tenha também enganado milhões de leitores, radiouvintes e telespectadores.

Como você sabe, “O abraço corporativo” conta a história de um consultor de RH, vinculado a um a organização inglesa especializada em relações humanas e que veio ao Brasil fazer a divulgação de uma teoria inovadora, propondo às empresas o abraço como solução para uma suposta doença que afetava o rendimento profissional dos funcionários, devido ao uso excessivo das novas tecnologias. Para promover e dar notoriedade à teoria e ao consultor mensageiro, os produtores da fraude criaram eventos inusitados, como a eufórica troca de abraços na avenida Paulista, com ingredientes de pauta irrecusável. Com  isso, conquistaram espaço e tempo nos principais veículos da comunicação do país.

Embalado pelo sucesso da divulgação jornalística e pelas técnicas de assessoria de imprensa e RP utilizadas, o tal consultor virou protagonista de noticiários e de programas de entrevistas. E nessa onda criada, foi entrevistado também pelo programa “Comunicação Corporativa”, que você apresenta na TV Cultura.

Em decorrência da divulgação conquistada, o homem virou até conferencista em eventos de RH.

Sei, Heródoto, que você resistiu o quanto pôde a essa pauta, por sentir a falta de consistência do conteúdo proposto. Mas houve um dia em que a produção venceu, e você passou pelo vexame de entrevistar, para os seus muitos milhares de telespectadores, um personagem fictício, na verdade protagonista de uma fraude.

Fraude, sim, porque tudo era mentira, invenção, num bem calculado,  planejada e controlada abuso de confiança. A organização inglesa não existia, a teoria também não, e menos ainda o consultor, que não passava de um ator (Leonardo Camilo), que se dispôs a usar a sua própria arte para enganar pessoas que organizam as suas relações com o mundo confiando na veracidade dos fatos noticiados    

Milhões de pessoas foram enganadas, Heródoto. E enganadas sem reparação.

A pretexto de quê? – essa a pergunta que eu e você fazemos, em nossa perplexidade.

Como você sabe, os inventores do abraço corporativo dizem que queriam expor e criticar os poucos cuidados que o jornalismo tem, na apuração e aferição do que divulga. Para provar isso, criaram essa gigantesca fraude.

Só que, para enganar os jornalistas e os públicos por eles informados, todas as pautas propostas foram encaminhadas às redações por um jornalista conhecido e bem considerado do meio, o diretor do documentário, Ricardo Kauffman . Logo, um profissional que merecia fé no meio jornalístico exatamente por ser jornalista, colega de profissão, vinculado, portanto, aos mesmos compromissos éticos e deontológicos que os pressupostos do projeto exigiam dos profissionais que trabalham em redações.

Como se vê, no conveniente raciocínio dos criadores do falso abraço, uns podem mentir, outros, não...

É provável que o documentário alcance sucesso. A história contada impressiona, incomoda, e o trabalho está tecnicamente bem feito. Pode até pretender servir a uma boa causa, a crítica do jornalismo. Mas o objetivo poderia e deveria  ter sido alcançado de outra maneira e por outros meios, sem práticas de estelionato. 

É o que penso, caro Heródoto. E o que aqui digo, já foi dito, talvez com palavras mais brandas, ao Ricardo Kauffman, inclusive na entrevista que lhe concedi para o documentário. Mas boa parte do que disse na conversa gravada foi cortado na edição final  – o que, evidentemente, é um direito de autoria de quem edita.

De qualquer forma, amigo Heródoto, já que a obra foi concluída e entrou em exibição, que ao menos produza debates proveitosos, que ajudem a melhorar o jornalismo. Inclusive no que se refere à honestidade jornalística das fontes, que não são corpos estranhos no jornalismo, mas parte dele.

São os meus votos. E acredito que também os seus, Heródoto.

Grande abraço!

Carlos Chaparro 
 
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24/05/2010
Publicado em: Postigo do Diálogo

Terceira  conversa com Brent Cunningham

A crise é boa e tem nome:
“Revolução das Fontes”


Meu caro Brent:

Encerro hoje esta nossa conversa, em sua terceira parte, com uma curta reflexão sobre algo a que chamo de “Revolução das Fontes”.

Como você sabe, tornou-se rotina o agendamento jornalístico dos mesmos assuntos, a reprodução das mesmas falas e imagens, a mobilização dos repórteres de todos os jornais para a cobertura dos mesmos acontecimentos – fatos, dizeres, atos planejados e controlados por pessoas ou instituições competentes, que por meio dos meios jornalísticos agem no mundo e interferem na atualidade.

Nada de mal existe nisso, claro. Ao contrário: a competência de produzir e difundir discursos sob a forma de acontecimentos é uma riqueza democrática e um direito de cidadania. Claro que os poderosos da economia e da política se beneficiam disso. Graças, porém, ao mesmo processo, também as minorias organizadas (os homossexuais, as etnias, os portadores de deficiência...) e os movimentos de vanguarda (os sem-terra, os ambientalistas...) colocam com sucesso seus discursos na sociedade.

Embora pouco se fale delas, as fontes fizeram uma revolução. E a crise é esta, Brent, e boa, recheada de contradições: o discurso jornalístico perdeu autonomia, porque em vez de agendar, é agendado. E seduzido por acontecimentos que já nascem com recheios elaborados para o relato jornalístico.

O jornalismo não ficou à margem do processo, nem perdeu importância. Ao contrário: jamais foi tão importante para o sucesso dos processos sociais. Acontece que as fontes sabem mais da atualidade do que as redações, porque a produzem, em ritmo alucinante, de forma intencional, interessada. E lhe impõem uma lógica de conflito que atribui novos papéis ao jornalismo, exigindo dele, como linguagem e ambiente do relato e da análise, uma vocação de compromisso com valores. Porque os conflitos da atualidade devem ter boas razões de ser. As razões dos valores éticos. 

Sim, existe hoje um problema grave: o jornalismo está falhando na relação críticae independente que deveria ter com os conflitos da atualidade. Talvez atordoadas pela avalanche diária de fatos e falas noticiáveis, as redações perderam a vontade de investigar por conta própria. E sem investigação jornalística independente não há como atribuir, ao que acontece, significados intelectualmente honestos e perspectivas de interesse público.

E por aqui fico, prezado Brent Cunningham. Com a esperança de um dia podermos pessoalmente dar prosseguimento à troca de ideias.

Grande abraço!

Carlos Chaparro
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