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| 01/03/2010 |
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| Publicado em: Postigo do Diálogo
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Eis Fernanda, 
mulher e cidadã
em formação
Faz hoje 13 anos a mais linda Fernanda do planeta. E esse é um bom motivo, querida neta, para te trazer aqui, a este Postigo do Diálogo, espaço aberto onde as conversas sempre andam em torno de ideias que nos ajudem a repensar as relações com este nosso mundo de contradições.
A meu ver, Fernanda, a travessia dos 12 para os 13 anos é mais importante do que a tão festejada chegada aos 15 anos. Porque é aos 13 anos que devemos dar início ao exercício de escolher caminhos próprios. E de assumir as escolhas feitas - sem medos, mas também sem as imprudências e as leviandades da pressa.
Eu, que já vivi 76 anos, posso te ensinar, Fernanda, que saber escolher é, entre tantas, a mais valiosa das artes de viver e sobreviver. Porque no exercício da escolha se fundem a vontade e a inteligência que nos fazem gente. E acredita: só com a vontade inteligente seremos donos do nosso próprio destino – como seres humanos e como cidadãos.
Porém, acho importante dizer-te, minha neta, que a vontade inteligente precisa de boas razões para existir e se afirmar. E as boas razões estão nos ideários elaborados pela própria experiência humana de viver, na constante busca por civilização e cidadania.
E assim chego ao que de essencial deve ser dito, neste dia em que entras no 14º ano de vida: o que está em formação em ti não é só a mulher linda que serás; está em construção, também, a cidadã Fernanda Chaparro de Almeida, da qual o Brasil precisará.
Tens, pois, a responsabilidade de começar a moldar em ti a cidadã idealista, honesta, consciente, convicta, lúcida e bem informada, que em três ou quatro anos estará apta para a missão cívica de votar e ser votada. Apta, portanto, para usar o poder do voto na construção de uma sociedade em que se materialize, como verdade, o ideal de cidadania estabelecido no primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos: “Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos”.
E a citação dessa frase é uma boa maneira de terminarmos a nossa conversa, neste dia de festa, que para ti deve ser de crescimento - o crescimento emocionante da adolescência em que agora entras.
Que Deus te abençoe, querida neta. E que te proteja e ilumine, nas escolhas da caminhada.
Beijos do avô
Carlos Chaparro
* Leia outros diálogos na pasta do Postigo,
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P. S. - Quando, por decisão tua, achares que é tempo, começa a ler e a estudar a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Sem pressa, mas de forma continuada. Isso te ajudará a crescer e a fazer escolhas. Aqui mesmo, neste blog, está disponível o texto da Declaração.
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| 21/02/2010 |
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| Publicado em: Postigo do Diálogo
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Conversa com
Marcelo Rossi, mito
da religiosidade ingênua
Caro padre Marcelo:
Depois de muito pensar, resolvi colocá-lo no outro lado deste Postigo aberto, para uma conversa que dificilmente ocorreria de outra maneira. E que, dada a complexidade dos assuntos que a motivam, deve ser conversa de rigorosa precisão nas palavras e de plena clareza nas idéias.
A decisão final de lhe abrir este Postigo do Diálogo foi tomada depois que, faz poucos dias, numa igreja comum da zona norte de São Paulo, ouvi a homilia de um jovem sacerdote, cujo nome nem sei. Mas que, em suas formas de dizer, pensar e agir, se agigantou como antítese do padre Marcelo.
O senhor, padre Marcelo, com artes, técnicas, truques e talentos que lhe dão competências de grande comunicador, transforma pessoas em multidões manobráveis. Faz isso deliberadamente e com inegável sucesso. Já aquele jovem sacerdote, em sua homilia, usou o convite ao pensar para seguir o caminho inverso: olhando a pequena multidão que tinha à sua frente, fragmentou-a em pessoas pensantes, críticas, livres, capazes de enxergar em si próprias, e na verdade particular de suas vidas, argumentos para um agir cristão inteligente, sem fugas ao mundo real das fragilidades e das limitações.
Dele, não ouvi uma só palavra ou entonação, não lhe vi um só gesto, nem qualquer gestualidade, que cultivassem ou incentivassem a religiosidade ingênua aberta a crendices e superstições, desvios com os quais se deforma, por aí, a virtude da Esperança, principalmente nas camadas mais pobres e sofredoras da população, que tanto precisam de razões humanas para assumir, em lutas, o próprio destino.
Pois é a Esperança, padre Marcelo (já o dizia dom Helder Camara), que dá razão de ser e energia às boas lutas da vida. Lutas por Dignidade, por exemplo. E por Justiça, por Liberdade, por Democracia. Sem Esperança, não há por quê nem como lutar por esses valores.
O senhor, padre Marcelo, melhor do que eu, sabe o quanto a religiosidade ingênua serve de fermento à formação e ao controle de multidões emocionalmente oscilantes, submissas aos ventos da demagogia, quaisquer que sejam ou de onde venham esses ventos – de padres, bispos, pastores, governantes ou militâncias políticas. Mesmo assim, em conceitos, cantos e “comandos”, o senhor dissemina a religiosidade ingênua – e espero que me dispense de comprovações, tantas e tão perceptíveis elas são nas missas da Rede Globo, assim como no seu site e nos programas radiofônicos, diários, pela Rádio Globo.
Sei, padre Marcelo, que pode haver certa dose de injustiça nestas minhas avaliações, já que o senhor está submetido aos deveres contraditórios de tarefas ou missões igualmente contraditórias: ser, de um lado, profeta de Deus no mundo dos pessoas, que devem ser tratadas como criaturas dignas, livres, inteligentes, com vontade própria; de outro lado, ser comunicador amarrado por contrato à poderosa Rede Globo, com a obrigação de lhe garantir a contrapartida de altas audiências, o que pressupõe a obrigação de seduzir e/ou manipular grandes públicos com liturgias de show-business – e para isso servem as multidões oscilantes e os talentos do comunicador.
Sei também, padre Marcelo, que o senhor construiu essa posição de condutor de multidões para estabelecer uma frente de relação de forças com o crescente poder comunicacional dos pregadores-empresários neopentecostais. Temos, aí, a terceira vertente do problema. Nessa responsabilidade assumida, não devem ser poucas, nem pequenas, as tentações e as necessidades táticas de “jogar o mesmo jogo”. E quando assim é, se assim for, perde-se a decência religiosa. Inevitavelmente.
Sei, ainda, padre Marcelo, que não é fácil conciliar, dentro de padrões éticos e morais aceitáveis, tão divergentes interesses, nem todos santificantes. Não sei, porém, como ajudá-lo, padre, a não ser da maneira que aqui exercito com perigosa e talvez inconveniente sinceridade: colocar no ar argumentos de reflexão que nos ajudem – a mim, ao senhor e às pessoas que aos milhões o seguem ou procuram – a ter uma relação crítica com as contradições dessa face eletrônica da Igreja Católica, onde o senhor, padre Marcelo Rossi, atua e se movimenta como estrela maior.
De resto, se o quiser usar, este é um espaço à sua disposição.
Cordialmente,
Carlos Chaparro
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* P.S. - Só mais uma coisa, padre Marcelo - e este é um lembrete que deveria fazer parte da lista de deveres éticos de todos os que lidam com comunicação massiva: quanto maior o poder de convencimento e mobilizaão do comunicador, maior, também, o seu dever de educar - não multidões, mas pessoas. |
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| 21/10/2009 |
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| Publicado em: Postigo do Diálogo
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Corrupção,
praga maldita
Caro amigo João Inocêncio (foto) :
Permita que traga a este Postigo algumas das nossas preocupações comuns, com as quais alimentamos conversas durante o cafezinho da tarde (quando tal é possível), na sua bem afamada doceria. Como você sabe, João, este é um Postigo sempre aberto a diálogos sem fronteiras. Por isso, o que aqui falarmos ficará exposto ao mundo. Ao mundo pertencerá. E imagino que você nada tenha contra a partilha de idéias com quem por elas se interessar, em qualquer parte do planeta.
Pois se ainda não sabe, fique sabendo, amigo João: internautas de pelo menos 50 países entram regularmente neste nosso blog. Entre eles, gente até da Indonésia – e de Singapura, Israel, Canadá, Portugal, Coréia do Sul, México, França, Índia, Alemanha, Rússia, Hungria... e de mais algumas dezenas de terras. Brasil incluído, claro, respondendo por mais de dois terços da platéia que nos lê.
Falemos, pois, de Brasil. Um país maravilhoso, mas de povo sofredor. Um país rico, mas que tem no gigantismo da pobreza e da miséria a cicatriz marcante da sua fisionomia social. Um país de instituições democráticas consolidadas, mas que continua a ser tolerante com os crimes e os costumes da corrupção. E nada é mais anti-democrático, neste país de tão belos sonhos e tão generosas riquezas naturais, do que esse odioso ralo de roubalheira e desonestidade, o ralo da corrupção, pelo qual, em acordos secretos entre corruptos e corruptores, se vão recursos que faltam na educação, na saúde, na infra-estrutura, na habitação, nas políticas públicas de criação de empregos, e em tantas outras frentes de carências que não conseguimos superar.
É verdade que, no correr das conversas informais do dia a dia, todos nos queixamos da corrupção. Em voz alta, lamentamos que ela exista e tanto deforme o Brasil. Porém, muitos desses que em voz alta falam contra a corrupção, baixam a voz, assumem silêncios diante das situações concretas, ajudando a alimentar a endemia do peculato e de outras formas corruptas de agir - e não apenas por comportamentos de tolerância passiva, mas, o que é pior, participando frequentemente do jogo sujo das trocas espúrias.
Os nossos cinco séculos de Nação nos habituaram a essa endemia histórica a que damos o nome de “corrupção”. Endemia sustentada, ao longo dos tempos, por uma lógica terrivelmente sedutora – esta, que está na boca de todos os corruptos e corruptores do pequeno varejo das desonestidades: “Já que os grandes, lá em cima, roubam milhões e nada acontece com eles, por que nós, aqui em baixo, não podemos fazer o jogo sujo dos tostões?” - e nos dói a alma, de vergonha, vermos que entre os que assim agem ou toleram há gente com responsabilidades de pais e educadores, de quem se deveria esperar o bom exemplo.
No mínimo, o bom exemplo.
Felizmente, meu caro amigo João Inocêncio, a corrupção graúda está sendo hoje combatida, já com bons resultados, por instituições de Estado constitucionalmente independentes – o Ministério Público, a Polícia Federal e segmentos importantes do Judiciário. Mas as práticas miúdas da corrupção, João, essas são erva daninha de difícil combate. Um câncer repugnante no tecido social. Câncer que terá de ser enfrentado, prioritariamente, por uma educação construtora de novos padrões de civismo nos comportamentos individuais. E aí, João, obrigações particulares, mas convergentes, recaem sobre pais e professores, de quem se espera que sejam educadores, nas escolas e nas famílias. Para que crianças e jovens, os nossos brasileirinhos de hoje, façam do Brasil a Nação que nós já deveríamos ter feito.
Penso, prezado amigo, que não deveremos temer o debate. Ao contrário: há que provocá-lo. Por isso, trouxe hoje o assunto ao nosso diálogo, neste Postigo escancarado a todos. E o desafio que lhe deixo, João, é o de dar prosseguimento a esta conversa, aí na doceria e no ambiente artístico por onde você circula tão à vontade e de forma tão criativa. Da minha parte, tentarei fazer o mesmo nos ambientes em que possa ser ouvido.
Grande abraço!
Carlos Chaparro |
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