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Postigo do Diálogo

  • Ricos e pobres

    Publicado por Carlos Chaparro em 25/02/2016

    O que seria dos ricos
    sem os pobres?

    Entre o texto postado ontem e o que agora escrevo, recebi uma carta da minha amiga Norma Alcântara. O melhor: chegou-me uma cópia da carta, antecipada por e-mail. A carta, mesmo, só chegará dentro de alguns dias. E já lhe posso dizer, Norma, que um e-mail não transporta as emoções de uma carta. Por isso, vou esperar a carta. Mas li no e-mail o suficiente para ficar informado de que você mudou de Londres para Bournemouth, 170 km ao sul da capital inglesa.  Pois em homenagem à nova cidade que a acolheu, e pela qual você se encantou (em boa parte, por causa da praia, imagino…), enfeito o texto com a uma foto da bela “St. Peter’s Church”, talvez o mais simbólico cartão postal de Bournemouth.

    Escrevo, porém, para lhe falar do Brasil. E começo por uma notícia que para alguns será ótima, para outros, detestável – esta: o povo brasileiro continua banhado pela pobreza; mas o capitalismo nacional vai de vento em popa.

    No que se refere ao “vento em popa” do capitalismo nacional, os jornais de hoje garantem isso. Eles nos informarem que, entre janeiro e junho deste ano, o setor privado brasileiro investiu oito bilhões e meio de dólares em outros países. E calcula-se que os investimentos internacionais de nossas empresas cheguem a 18 bilhões de dólares até o final do ano.

    E lhe digo mais, Norma: a internacionalização das grandes empresas brasileiras já é tida como tendência irreversível. Criaram até um “Índice de Transnacionalidade” que indica o percentual de negócios das nossos empresas no exterior. Por essa medida, temos pelo menos cinco gigantes transnacionais, com destaque para a Gerdau, cujas atividades no exterior já representam 46% dos negócios do grupo.

    Em matéria de capitalismo, porém, nem tudo são rosas para o Brasil. Porque, no fluxo inverso (ou será o mesmo fluxo? Vai ver, é…), estamos alimentando o esfomeado capital internacional. É o que também nos dizem os jornais de hoje: no primeiro semestre, os lucros das multinacionais aqui instaladas ,remetidos ao exterior, chegaram a quase 19 bilhões de dólares, o que explica, em boa parte, o déficit de 17,4 bilhões de dólares nas contas externas do Brasil.

    Mas no fundo, no fundo, talvez essa seja uma forma equivocada de olhar os jogos de poder do mundo financeiro. E isso, por causa de uma dúvida atroz que me embota o raciocínio: será que existe mesmo essa fronteira entre capitalismo brasileiro e capitalismo internacional? Não seria mais correto pensar que são correntes interativas e solidárias do mesmo oceano?

    Eis aí uma complicação sobre a qual não sei escrever.

    Entretanto, Norma, enquanto você passeia por aí, entre belezas da história européia e descontrações do verão em Bournemouth, eu continuo com a velha mania de dar as minhas voltas pelo centro de São Paulo. Andei por lá, neste fim de semana. E lhe digo que voltei ao meu Jardim Primavera com a sensação de que a miséria exposta nos moradores de rua (crianças incluídas) cresce na mesma proporção da vitalidade capitalista – a internacional e a brasileira, tanto faz.

    Só estranho, Norma, que nos mesmos jornais de hoje não haja uma só estatística, uma só linha, sobre a face miserável da moeda brasileira. Estranheza que talvez seja apenas ingenuidade, já que, segundo alguns sábios merecedores de fé, pobreza e riqueza são partes solidárias do mesmo quadro. Ou da mesma moeda.

    Afinal – e com a pergunta me despeço – o que seria dos ricos sem os pobres?

    E até breve!

                                                  Carlos Chaparro

    * Leia os textos anteriores do “Postigo

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    P.S . Algumas horas depois de ter colocado no ar o texto da coluna, recebi o boletim político semanal que o professor, jornalista e consultor Gaudêncio Torquato mantém na Internet (“Porandubas Políticas“), do qual tiro a seguinte nota, que ajuda à reflexão proposta:

    * ESSE BNDES  – Dizem que o BNDES é o Pronto-Socorro Central do governo. Sempre foi. Mas, ao que parece, hoje, as portas do banco salvacionista parecem cada vez mais travadas para os pequenos e escancaradas para os grandes. Empresários do setor sucro-alcooleiro jogam caminhões de cana, aliás, de pragas contra a morosidade na tramitação de processos do setor. O presidente Lula prometeu todo apoio às causas desse empresariado e o Banco chegou a criar linha de crédito específica. Mas os “eleitos”, com direito a pão-de-ló, continuam sendo nomes como CVRD, a famosa Vale, e a OI. O BNDES mais parece um Robin Hood às avessas : tira dos pequenos para dar aos gigantes.

     

     

  • Natal na rota da Intercom

    Publicado por Carlos Chaparro em 25/02/2016

    Natal na rota
    da Intercom

    Natal, a cidade dos Reis Magos, faz parte da minha vida e dos meus afetos. Foi lá que pela primeira vez me deliciei com a doçura da pinha, a fruta que me serviram no primeiro almoço brasileiro, mal havia chegado à cidade, pelo Aeroporto Augusto Severo, com a farta bagagem de imigrante jovem , já casado, que vinha para ser brasileiro e se integrar ao Brasil, e que ao Brasil trazia, como melhor presente, uma filha linda, de três meses – e me desculpem o estilo turbilhão do longo período. Estourou o dique de emoções guardadas, vivas, há exatos 47 anos, três meses e alguns dias…

    Morei três anos em Natal. Três anos intensos, criativos, emocionantes. Lá nasceu a minha segunda filha, lá ganhei três dos meus prêmios Esso, lá, pelas lupas nordestinas, aprendi a conhecer e a entender o Brasil. E ainda hoje considero um privilégio ter entrado no Brasil pelos horizontes luminosos do Rio Grande do Norte. Até porque lá tenho alguns dos melhores amigos que o destino me deu no Brasil.

    Um deles, o jornalista Arlindo Melo Freire, que me surpreendeu quando, já pra lá de cinqüentão, resolveu criar bodes e cabras num pequeno pedaço de terra comprado no miolo do sertão potiguar. E não por hobby, que Arlindo não é dessas coisas, mas por sonho e idealismo de nordestino que acredita em sua terra. Tal como Ariano Suassuna, meu amigo Arlindo tem fé irredutível da caprinocultura, como atividade produtiva e fonte de renda do povo sertanejo. E nesse seu jeito de meter a cara e a alma naquilo em que acredita, Arlindo se parece com Norma Alcântara, aquela amiga de que já vos falei, que transita em vôos de liberdade, pela Europa.

    Não sei se Arlindo continua a criar bodes e cabras. Mas logo o saberei. Porque no início de setembro estarei em Natal, e por lá ficarei alguns dias, para participar do Congresso da Intercom, o mais importante acontecimento brasileiro da área das ciências da comunicação. Este ano, os mais de dois mil participantes inscritos vão-se dividir por uma diversificada quantidade de eventos, com apresentação de trabalhos científicos e culturais em espaços de quatro universidades-sede. Mas o grande tema do Congresso será “Mídia, Ecologia e Sociedade”. E esse enlace temático em torno da Ecologia certamente vai interessar muito ao meu amigo Arlindo e à coletividade norteriograndense.

    Aos mais interessados, recomendo que entrem no site da Intercom, para se informarem em detalhe do vasto programa do Congresso, que tem até a entrega do “Prêmio Câmara Cascudo de Folkcomunicação”.

    Não perca esse Congresso, Arlindo. Na medida do possível, dê notícias dele aos seus amigos e aos colegas jornalistas. E estes, estão desafiados a socializar o valioso conteúdo científico e cultural que a Intercom vai levar a Natal.

    Para ajudar a compreender a importância e o significado do Congresso, deixo aí, em vídeo, depois do texto, um depoimento do professor José Marques de Melo, presidente da Intercom.

    Grande abraço, amigo Arlindo! E até ao reencontro, em setembro!

    Carlos Chaparro

    * Leia os textos anteriores do “Postigo

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