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  • Investigar é ir além da lágrima ou do sorriso

    Publicado por Carlos Chaparro em 25/02/2016

    Investigar é ir além
    da lágrima ou do sorriso

    Jornalista que se contenta com o aproveitamento oportunistas das manifestações aparentes, quase sempre emocionantes, escreve historinhas adocicadas ou lacrimosas. Para vender jornal ou conquistar audiência. Porém, os que têm sensibilidade e saber para captar nos pequenos fatos do quotidiano a complexidade de problemas maiores, não rejeitam a emoção da lágrima ou da alegria, nem devem fazê-lo. Mas vão além disso. Tiram a própria venda, para ver melhor. E mergulham na realidade, fazem a chamada investigação jornalística.

     

    O XIS DA QUESTÃO – Jornalista que se contenta com o aproveitamento oportunistas das manifestações aparentes, quase sempre emocionantes, escreve historinhas adocicadas ou lacrimosas. Para vender jornal ou conquistar audiência. Porém, os que têm sensibilidade e saber para captar nos pequenos fatos do quotidiano a complexidade de problemas maiores, não rejeitam a emoção da lágrima ou da alegria, nem devem fazê-lo. Mas vão além disso. Tiram a própria venda, para ver melhor. E mergulham na realidade, fazem a chamada investigação jornalística.

    Experiência
    inesquecível

    Das lembranças que guardo da docência na ECA-USP, a mais forte é que me transporta a 1993/94, época em que ganhou vigor o projeto laboratorial “Notícias do Jardim São Remo”, feito pelos calouros.

    Quando as novas turmas do período da manhã começavam o curso de jornalismo na Universidade de São Paulo, tinham comigo a primeira aula, na primeira segunda-feira do período letivo. Nada estratégico, mas simples coincidência criada pela grade curricular, mas da qual gostava. A disciplina chamava-se Laboratório de Texto e tinha como ferramenta de aprendizado um jornal de verdade, quinzenal, com tiragem de mil exemplares, distribuído na favela de dez mil pessoas consolidada dentro perímetro da própria cidade universitária – o Jardim São Remo.

    Para os alunos, constituía surpresa sensacional descobrir que no primeiro dia de aula começavam a lidar com jornal de verdade, ainda por cima num curso com fama de teórico. Quinze dias depois, a primeira edição estava na rua. Tudo feito por eles: plano editorial, trabalho de campo, texto, fotos, produção gráfica.

    Os próprios alunos faziam a distribuição na favela, de mão em mão, olhando os rostos dos seus futuros leitores, falando com eles. No começo, havia timidez, talvez até medo. A maioria deles nunca antes havia entrado numa favela. Mas isso logo passou. Logo começaram a partilhavam conversas com os moradores. Às vezes, nos barzinhos onde, nas manhãs de sábado (dia da distribuição do jornal), a pinga corria generosa pelas goelas operárias; outras vezes, dentro de alguma das apertadas casinhas aonde eram cordialmente convidados a entrar. Não demorou, caíram os medos e os preconceitos. Os jovens universitários rapidamente descobriam que favelado é gente cordial, respeitadora. E que também gosta de ser respeitada, porque ganha o pão com o suor do rosto.

    Havia também a surpresa do assédio das crianças. Criança está sempre a fim de festa. No caso, além disso, a agitação infantil acontecia porque, para as crianças, havia no jornal um suplemento infantil. No começo, os alunos estranhavam a quantidade de crianças nas ruas. Com o passar do tempo, aprendiam que, na favela, a rua oferece o espaço que falta nas casas.

    Envelhecidas idéias

    O jornal (Notícias do Jardim São Remo) foi por mim criado para o ensino, mas tinha, também, o significado de projeto de extensão universitária, já que serve socialmente a uma comunidade carente e organizada. E a ela estava incorporado.

    Escrever e editar o Notícias do Jardim São Remo ensinava os alunos a lidar, em nível de iniciação, com as técnicas e as complicações éticas e estéticas do jornalismo. Mas a melhor contribuição que o jornal lhes dava era a de levá-los à descoberta do mundo dos excluídos. O mundo sobre o qual tinham de escrever, e que por isso devia ser compreendido, com tudo o que tinha e tudo o que lhe faltava.

    O esforço pedagógico inicial concentrava-se em duas preocupações prioritárias. Uma, teórica, busca passar aos alunos um entendimento claro do conceito jornalístico de atualidade. E a experiência laboratorial lhes ensinava que a atualidade tem, no substrato, a complexidade da vida presente das pessoas. É na atualidade que o jornalismo atua e se realiza. Mais do que isso: o jornalismo está inserido na atualidade, faz parte dela, porque no jornalismo se expressam e se realizam com sucesso os conflitos que a transformam. Esse, o vínculo que liga o jornalismo aos processos da vida e da cultura.

    Alguns autores, desses que, com idéias antigas, até agora pontificam na conceituação do jornalismo, disseminam há décadas a crença de que o jornalismo contempla a atualidade à distância. Vejam só o que Miguel Urubayen escreve, no seu livro mais conhecido (Estructura de la información periodística – concepto e método, Barcelona, Editorial Mitre, 1988): “Informação jornalística é a referente a notícias, dados e opiniões, publicadas em forma regular por meio de palavras e imagens, com o fim básico de satisfazer o desejo de conhecimento da atualidade em quem recebe tais informações”. Isso o leva a concluir (“nuestra definifición”, escreve) que a informação jornalística “trata basicamente de satisfazer o desejo de conhecimento da atualidade de seu destinatário”.

    Portanto, Urubayen considera a curiosidade elemento decisivo do sucesso jornalístico. Na opinião dele, o que a informação jornalística faz, “contínua e inesgotavelmente”, é alimentar a curiosidade humana.

    Ora, o que está em jogo no relato jornalístico não é a curiosidade das pessoas, mas a vida delas. E se o jornalista não entender isso, jamais compreenderá a complexidade do jornalismo, que não pode ser entendido nem praticado como aventura literária.

    Protagonistas e transformação

    A segunda prioridade pedagógica do Notícias do Jardim São Remo era a de levar os alunos a descobrir que os protagonistas da atualidade, e portanto do relato jornalístico, não são os jornalistas, mas os que produzem os fatos e as falas da transformação, e os que sofrem os efeitos das transformações, aceitando-as ou rejeitando-as.

    A superfície organizada da atualidade esconde um mundo fervilhante, contraditório, imperfeito, e quem não percebe isso que visite uma favela ou um bairro de lata. “Andem pelas ruas da favela, olhem o que por lá se passa”, dizia aos meus alunos. “Sintam os sinais de um mundo que precisa ser transformado”.

    Os acontecimentos e as falas da transformação são erupções que emergem da realidade. Carecem do relato jornalístico e têm direito a ele. Mas não pode bastar à interpretação jornalística o simples relato do que acontece e é dito. É preciso romper a superfície organizada da atualidade, porque lá embaixo, ou até sob as aparências dos acontecimentos, estão os contextos e as contradições que devem ser reveladas. É a vocação do desvendamento, que o jornalismo não pode perder.

    Não há um só problema complicado do mundo, desses que justificam grandes reportagens (a fome, o desemprego, o racismo, a guerra, a educaç

  • A Revolução das Fontes

    Publicado por Carlos Chaparro em 25/02/2016

    A Revolução das Fontes (I)

    Elas conquistaram o poder
    de agendar e rechear a Notícia

    Democracia, mercado e tecnologia formaram a mistura que criou a lógica da competição sustentada em informação, com mais ou menos exageros neoliberais. Institucionalizaram-se os interesses, as ações, as próprias pessoas. Globalizaram-se os processos, as emoções, principalmente os fluxos e os circuitos da informação. E noticiar passou a ser a mais eficaz forma institucional de agir, discursando, e de discursar, agindo.
    Um estudo de caso mostra como o  MST usa a Notícia como forma de agir.

     

    Elas conquistaram o poder
    de agendar e rechear a Notícia

    Os jornalistas não gostam de ouvir nem de dizer que dependem das fontes. Entretanto, na dimensão do mundo real, é na fonte que o repórter colhe o relato, o testemunho, a opinião, os ais e uis com que compõe a narrativa do quotidiano, sua arte maior. No jornalismo, até ao mais brilhante contador de histórias de pouco servirá a arte de escrever se não souber onde estão as boas fontes e como lidar com elas.

    Dependemos das fontes, e sempre foi assim. Sem elas não existe a informação decisiva, o detalhe poético, a versão esclarecedora, a frase polêmica, a avaliação especializada. A fonte faz acontecer, revela o segredo, detém o saber ou a emoção que queremos socializar. Ou sofre os efeitos e a eles reage.

    Assim como a seiva está para a árvore, a fonte está para o repórter, o editor e o articulista da análise diária. Por isso o jornalista a cultiva e preserva, às vezes com intimidade perigosa, e com ela partilha segredos que não chegam ao leitor.

    Na hora de escrever, na rotina da produção e dos procedimentos profissionais (os conscientes e os inconscientes), a perspectiva das fontes influencia, inevitavelmente, a decisão jornalística – e quanto mais competente elas se tornam, mais capazes são de determinar enfoques, relevâncias e até títulos, na narração jornalística.

    ***

    Já houve tempo, longo tempo, em que tanto as empresas e as organizações sociais quanto as instituições governamentais tinham, em relação à imprensa, uma atitude passiva e burocrática, quase sempre defensiva. E porque havia escassez de fatos e casos importantes intencionalmente produzidos, o inusitado, o insólito, o engraçado, e também o linearmente dramático (o atropelamento, a tragédia, o crime passional, a morte inesperada…) reinavam como atributos decisivos nos critérios de pauta e edição, também nos grandes jornais. Foram tempos em que o fait-divers ganhou honrarias e venerações de mito, na cultura jornalística.

    As coisas mudaram ao longo dos anos 70, principalmente depois deles.

    Democracia, mercado e tecnologia formaram a mistura que criou a lógica da competição sustentada em informação, com mais ou menos exageros neoliberais. Institucionalizaram-se os interesses, as ações, as próprias pessoas. Globalizaram-se os processos, as emoções, principalmente os fluxos e os circuitos da informação. E a Notícia tornou-se o produto mais abundante da realidade global.

    Noticiar passou a ser a mais eficaz forma institucional de agir, discursando, e de discursar, agindo. Para o sucesso, as instituições apropriaram-se das habilidades narrativas e argumentativas do jornalismo; assimilaram as rotinas e a cultura da produção jornalística; e no planejamento e controle dos acontecimentos, a dimensão comunicativa ganhou preponderância, para a divulgação dos eventos e a difusão do discurso.

    Em crescendo que a pesquisa acadêmica especializada precisaria acompanhar melhor, aumentou, em pautas e noticiários, a participação de acontecimentos planejados, com conteúdos gerados e fornecidos pelas fontes.

    Estudo de caso:
    O “fazer” e o “dizer” do MST

    No Brasil dos últimos vinte anos, ninguém fez melhor isso do que o MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Trata-se de um case notável de utilização do jornalismo como linguagem e espaço de ação discursiva.

    Ao contrário do que o próprio movimento sugere, o MST é uma organização bastante complexa. Tem áreas de decisão protegidas pelo sigilo; lideranças (várias delas com formação superior) cuja hierarquia não é perceptível; capacidade de ação e articulação que nenhuma outra organização social exibe no Brasil; e fontes de suprimento financeiro de várias origens, inclusive internacionais.

    O movimento surgiu e cresceu com o mais coerente discurso de esquerda, na história recente brasileira, com a novidade de cultivar uma síntese de marxismo e cristianismo. E com o apelo sedutor de ter a justiça social como razão de ser e agir – que lhe serviu muito, e bem, pelo menos enquanto não assumiu publicamente o objetivo principal de lutar por um modelo socialista de regime e de reforma agrária.

    O inquestionável sucesso político do MST deve-se à conjugação inteligente de todos esses fatores. Mas resulta, principalmente, da perfeita sintonia entre o fazer e o dizer, entre a ação e a divulgação. As ações do MST têm, quase sempre, alta dosagem de interesse jornalístico. E por causa da alta dosagem de interesse jornalístico, a conquista de espaço na mídia é decorrência natural.

    A competência do movimento para lidar com a informação amplia a rentabilidade jornalística dos acontecimentos. E a eficácia da divulgação agrega, às ações, dosagens significativas de sucesso. Foi o que aconteceu com a marcha dos Sem Terra até Brasília – provavelmente, a mais ousada e complexa ação política na história do MST.

    ***

    A Marcha teve início no dia 17 de Fevereiro de 1997, em tempos áureos de Fernando Henrique Cardoso. Participaram da Marcha cerca de 1.200 militantes do MST, divididos em três colunas, saindo de pontos diferentes do País, em itinerários convergentes para Capital. Os três grupos chegaram a Brasília no dia 17 de Abril, onde, aos Sem Terra, se juntaram milhares de outros trabalhadores, para manifestações conjuntas de protesto e oposição, em favor da reforma agrária.

    Com finalidades acadêmicas, coordenei, naquele mesmo ano, um estudo sobre o significado discursivo dos acontecimentos (projeto realizado com a ajuda financeira da FAPESP). Medições feitas para esse projeto revelaram que, somente em dois jornais (Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo), a Marcha dos Sem Terra a Brasília gerou, no seu percurso de dois meses, 374 peças jornalísticas, entre reportagens, editoriais, crônicas, artigos assinados, notícias e entrevistas. Essas peças (incluindo texto e fotos) ocuparam um espaço total de 120.432 cm2, o que corresponderia a 67 páginas impressas em formato standart.

    ***

    Para poder atribuir significado a esses números, conversei longamente, em maio de 1997, com o então coordenador nacional de comunicação do MST. Neuri Rossetto. Ele era um dos vários dirigentes do movimento oriundos ou ligados á Igreja Católica. Conversou aberta e naturalmente sobre todas as questões colocadas, proporcionando à entrevista um conteúdo de alta valia para a compreensão do MST, que ele definiu assim:

    O movimento tem três objetivos. O primeiro é promover a luta pela terra, ou seja, a luta corporativa do camponês que não tem terra e necessita dela para sobreviver. Foi o primeiro estágio da nossa luta. O segundo objetivo é a reforma agrária, e essa é uma luta mais ampla do que a luta pela terra. Porque implica, em

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