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  • Censura, fantasma de muitas faces

    Publicado por Carlos Chaparro em 25/02/2016

    Censura,
    fantasma de muitas faces

    Não é na palavra censura que está o perigo. A palavra existe para definir uma quase infinidade de situações, várias delas convenientes à democracia e à cultura, inclusive o arbítrio jornalístico de publicar ou deixar de publicar. O perigo está no estabelecimento ou no consentimento do poder arbitrário de censurar.

     

    O perigo está
    no poder arbitrário de censurar

    O XIS DA QUESTÃO – Não é na palavra censura que está o perigo. A palavra existe para definir uma quase infinidade de situações, várias delas convenientes à democracia e à cultura, inclusive o arbítrio jornalístico de publicar ou deixar de publicar. O perigo está no estabelecimento ou no consentimento do poder arbitrário de censurar.

    1. Lembrando Paulo Feire

    A censura torna-se tema recorrente sempre que alguém vai à Justiça denunciar abusos a Imprensa ou solicitar medidas liminares contra tais riscos. Ou quando, em nome da moral e dos bons costumes, algum poderoso senhor pretende impor medidas restritivas a certas conteúdos, em certos horários, na programação da televisão. Ou quando, nos jogos de poder das redações, um editor autoritário altera, mutila ou elimina, sem discussão, o texto de outros

    Dizia o sábio Paulo Freire que a língua era a única arma imbatível de liberdade, porque através dela os dominados podem-se defender. Talvez por isso – e esta já não é uma reflexão de Paulo Freire, mas de Ciro Marcondes Filho, no seu livro “O discurso sufocado” – quem controla a linguagem entra na mira do sistema dominante. Na visão de Ciro, são formas desse domínio os blocos de pensamento padronizado, que impedem o acesso da inteligência à relação social real, por meio de estereótipos, slogans, frases, princípios e outras ferramentas de homogeneização de idéias e convicções. E a isso também se chama censura.

    Embora fora de moda como eixo teórico, essa visão ideológica do mundo dividido entre opressores e oprimidos ainda é uma forma de entender a questão da censura. A censura é um exercício efetivo de poder, e uma agressão à liberdade quando sustentado pela força ou pelo arbítrio, para controlar divergências ou oposições. O ápice do processo está na censura prévia, de natureza política, odiosa forma de sufocar dizeres e clamores dos mais fracos, tão inaceitável em regimes democráticos quanto indispensável em ditaduras.

    Ora, se países como o Brasil são democracias institucionalizadas, sólidas, ainda que imperfeitas, como rotular de censura procedimentos formalmente discutidos e definidos nas regras do jogo democrático?

    Poderemos qualificar de censura o controlo social de riscos educativos oferecidos por televisões somente interessadas em audiência?

    Serão censura os mecanismos ético-jurídicos de proteção aos direitos individuais à honra e à privacidade?

    2. Defesas culturais

    Censura, sim senhor. Só que censura cultural, que não pode ser confundida com a censura política.

    Não há cultura sem censura. Faz parte do processo. Cada cultura tem em si mecanismos próprios, objetivos ou subjetivos, de filtragem, rejeição ou exclusão de tudo o que considera perigoso ou ameaçador. Padre católico não entra em púlpito protestante, e vice-versa. Discurso direitista não tem espaço em convenção esquerdista. Os projetos do Palmeiras não serão noticiados no jornal do Corinthians. E o hino corintiano jamais será tocado nos alto-falantes do Parque Antártica.

    Jornal com identidade e perfil ideológico definido não publica tudo o que lhe chega. O El País, por exemplo, em seu Libro de Estilo, exclui do pluralismo que pratica as tendências que “propugnam a violência para o cumprimento de seus fins”.

    A censura cultural funciona na preservação dos modelos e valores estabelecidos em cada país, em cada religião, em cada partido, em cada instituição, em cada família, em cada jornal, separando o que pode ou convém ser dito do que não pode ou não convém dizer, segundo critérios que qualificam o que é ou não perigoso – e isso tanto se aplica aos ambientes reacionários, que rejeitam idéias avançadas, quanto aos ambientes abertos, evoluídos, que repudiam propostas e visões conservadoras.

    De pouco adianta a Folha de S. Paulo dizer em seu “Manual de Redação” que não considera censura o poder atribuído ao editor, de cortar, alterar ou rejeitar os textos dos repórteres. É uma forma de censura, que, no plano das intenções, visa proteger compromissos culturais do jornal com determinados valores e finalidades.

    3. O perigo da arbitrariedade

    Não é na palavra censura que está o perigo. A palavra existe para definir uma quase infinidade de situações, várias delas convenientes à democracia e à cultura, inclusive o arbítrio jornalístico de publicar ou deixar de publicar. O perigo está no estabelecimento ou no consentimento do poder arbitrário de censurar. Isso acontece quando a censura se exerce sem o respaldo de leis democráticas, ao sabor de vontades interessadas ou subservientes.

    Ou quando, mesmo nas democracias, as ambigüidades jurídicas criam essa possibilidade.

  • Jornalismo e Marketing de mãos dadas

    Publicado por Carlos Chaparro em 25/02/2016

    Jornalismo e Marketing
    de mãos dadas

    Nunca como agora o marketing e a notícia andaram tão próximos e interativos. Na política como nos negócios. Nas religiões como na ciência. Na cultura como nos esportes de alta competição. Em qualquer desses campos, e em outros, os acontecimentos noticiáveis são cada vez mais cuidadosamente planejados e controlados pelos saberes e poderes estratégicos do marketing, que transformam em ações táticas os fatos a serem noticiados.

     

    Um cenário sem volta,
    que exige discussões novas

    Nunca como agora o marketing e a notícia andaram tão próximos e interativos. Na política como nos negócios. Nas religiões como na ciência. Na cultura como nos esportes de alta competição. Em qualquer desses campos, e em outros, os acontecimentos noticiáveis são cada vez mais cuidadosamente planejados e controlados pelos saberes e poderes estratégicos do marketing, que transformam em ações táticas os fatos a serem noticiados.

    Os próprios produtos jornalísticos – jornais, revistas, programas de TV e rádio – investem cada vez mais em estratégias de marketing, em busca de audiências que lhes garantam lucros. Ou seja: sobrevivência. E isso nada tem de ruim, desde que não ocorra a fraude do jornalismo, em suas razões de ser e nos seus modos de produção.

    Existe até, e cresce vertiginosamente no mercado, um segmento de produtos editoriais – o das publicações customizadas (“Custom Publishing”) – em que marketing e jornalismo se completam como conceito e como discurso, em torno de uma nova variável teórica, na qual as categorias “leitor” e “consumidor” se fundem.

    Trata-se de publicações que cumprem o papel de agregar, às marcas a que estão vinculadas, o valor simbólico da qualidade de bons textos jornalísticos. Em alguns casos, entre os melhores modelos existentes no mercado, são revistas de altas tiragens, distribuídas gratuitamente e/ou vendidas em bancas e livrarias de primeira linha, com qualidade editorial garantida em textos assinados por autores consagrados (jornalistas e escritores). Em outros casos, a opção estratégica é por tiragens baixas, para acentuar o caráter seletivo da distribuição. O que faz dessas revistas produtos disputados.

    Em ambos os casos, são publicações focadas em públicos identificados com as respectivas marcas. Públicos presenteados pelo requinte da qualidade editorial e gráfica. O sucesso é tal que algumas dessas revistas chegam a se transformar em lucrativas unidades de negócio, graças às receitas publicitárias que atraem. Com o detalhe de que têm e usam, como principal argumento de venda, a qualidade jornalística dos textos.

    Na trilha da aproximação estratégica e tática entre marketing e jornalismo corre também a tendência mundial de crescimento dos jornais de distribuição gratuita. E a essa tendência se juntam, aqui e ali, experiências novas de combinar venda em banca e formas de distribuição gratuita, de jornais que têm preço de capa e prestígio social de “grande imprensa”. É o caso do jornal português Público, tido como o principal diário de referência em Portugal.

    Pensado e escrito para leitores das classes A e B, o Público amarga a limitação histórica das baixas tiragens. Pois agora, além de vendido em bancas e livrarias pelo preço de capa, é distribuído gratuitamente na maior rede portuguesa de supermercados, como brinde oferecido aos clientes que passam pelos caixas.

    Em quê isso prejudica o jornalismo do Público? Acredito que em nada. Bem pelo contrário, o crescimento de tiragem aumenta o potencial econômico do jornal, sem lhe sacrificar a independência. E porque se trata de um bom jornal, também há benefício social da socialização dos conteúdos. Pessoalmente, em visita recente a Lisboa, pude comparar, ainda que sem aprofundamento, a qualidade atual do jornal com a de um ano atrás. O Público de agora me pareceu melhor.

    ***

    Temos aí, pois, um tema propício a novas reflexões e discussões,  indispensáveis e urgentes, se considerarmos que esse é um cenário sem volta: até que ponto são desejáveis, para a sociedade e suas razões éticas, as imbricações entre jornalismo e marketing?
    Sobre o assunto, fiz sexta-feira passada uma palestra no Recife (15/06/2007), para os participantes do IV Congresso Brasileiro de Comunicação Social, promovido pela Faculdade Maurício de Nassau. Conheça as principais idéias apresentadas no texto “É preciso preservar a linguagem jornalística“.

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