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Em Jeito de Crônica

  • Razões para chorar e lutar

    Publicado por Carlos Chaparro em 25/02/2016

    Razões para chorar e lutar

    Para chegar em casa, vindo da avenida Francisco Matarazzo, atravesso o rio Tietê pela Ponte Júlio de Mesquita Neto e caio na marginal pela alça de acesso que passa em frente ao Centro de Tradições Nordestinas, onde fica a Rádio Atual. E onde o forró corre solto nos fins de semana, sob bênçãos de Frei Damião.

    Uma enorme favela enche o horizonte visual…

     

    A humilhão da pobreza exposta

    Para chegar em casa, vindo da avenida Francisco Matarazzo, atravesso o rio Tietê pela Ponte Júlio de Mesquita Neto e caio na marginal pela alça de acesso que passa em frente ao Centro de Tradições Nordestinas, onde fica a Rádio Atual. E onde o forró corre solto nos fins de semana, sob bênçãos de Frei Damião.

    Uma enorme favela enche o horizonte visual. Ali existiu, em tempos idos, não muito distantes, uma outra favela, esvaziada com a transferência dos moradores para um conjunto habitacional no local, desses conhecidos por “Cingapura”. Isso, nos tempos de glória do “rouba mas faz”, anos de Maluf ou Pita, não tenho certeza de qual. Mas me lembro muito bem que, livres da favela, os terrenos que ladeavam a marginal e a tal alça de acesso da Ponte Júlio de Mesquita eram verdes, gramados. E a molecada das vizinhanças ali batia bola, nos fins de semana.

    De repente, faz três ou quatro anos, a favela começou a voltar. No início, timidamente, um barraco aqui, outro ali. Mas logo ganhou ímpeto. Cresceu. Cresceu. Avançou até os muros do Centro de Tradições Nordestinas. Alongou-se também para os lados da marginal e da alça de acesso de saída da ponte. O terreno está hoje totalmente ocupado pela pobreza exposta. Os barracos, miseráveis, muitos de papelão, já lambem o asfalto. E como não há mais por onde se expandir horizontalmente, a favela já cresce verticalmente, nos puxadinhos que aparecem do dia para a noite, talvez mais da noite para o dia.

    Sempre que passo por ali, aumenta a minha desconfiança das estatísticas que, sem citação de fonte, recheiam de otimismo, às vezes de ufanismo, os alegres discursos oficias – desses que anunciam melhorias na distribuição de renda, na contenção da pobreza, na oferta de empregos etc., etc., etc, – e nos etecetras se inclui o alardeado diagnóstico segundo o qual “o Brasil vive o seu melhor momento, desde a proclamação da República” – lembram-se?

    Confesso que não entendo essa contradição entre a alegria dos números oficiais e as tristezas que a cidade me mostra. Por onde passo, vejo espaços cada vez mais amplos invadidos pelas lutas de sobrevivência, nas faixas da miséria social.

    Fiquei com vontade de escrever esta crônica dia 15 deste mês. Nesse domingo, cheguei a desconfiar que as redações do Estadão e da Folha haviam colocado de lado a rivalidade que as estimula, para uma ação combinada de revelações complementares, em reportagens de grande destaque.

    Usando dados da Receita Federal e estudos do The Boston Consulting Group (apresentada como uma das consultorias mais importantes do mundo), a Folha noticiava ao seus leitores que os milionários brasileiros detêm mais da metade do PIB nacional.

    O relatório do BCG, que será oficialmente publicado em setembro, mas ao qual a Folha teve acesso antecipado, revela que os 130 mil milionários brasileiros somam uma riqueza estimada em 573 bilhões de dólares.

    A riqueza dos milionários brasileiros vem crescendo a um ritmo que permitiu ao país saltar da 18ª posição, em 2000, para o 14º lugar, em 2005, no ranking dos países com mais milionários. Além disso, temos os milionários mais ricos da América Latina.

    Vai ver, aí está a explicação da tal frase presidencial, sobre o momento histórico que o Brasil atravessa. Porque, pelo lado da pobreza, a conversa é outra, bem diferente.

    E, aí, quem nos informa é o Estadão. No mesmo dia 15, com dados de pesquisa realizada pela Superintendência de Habitação Popular de São Paulo, sob a coordenação da arquiteta Elisabete França, em parceria com a organização internacional “Aliança de Cidades”, e com financiamento do Banco Mundial, a notícia era esta: em quatro anos, a população favelada de São Paulo cresceu 38%. Eram 290 mil famílias em 2003; hoje, são 400 mil famílias.

    Essa, uma das faces dramáticas da realidade paulistana. Não dá para relaxar. Nem para gozar. Mas é possível chorar e lutar.

    É o que as famílias faveladas fazem.

    (Veja outros textos na coluna Em Jeito de Crônica)

  • O Poder da Palavra

    Publicado por Carlos Chaparro em 25/02/2016

    O Poder da Palavra

    Texto de homenagem
    a um comunicador

    Faz oito anos que Dom Helder Camara deu por encerrada a missão. Morreu às 22h20 do dia 27 de Agosto de 1999. Nordestino de nascimento, ao Nordeste voltou em meados de 1964, para assumir a arquidiocese de Olinda e Recife. E assim falou no primeiro encontro com a multidão que o aguardava, em praça pública: “Aqui, neste santuário de sol, o Cristo se chama João, Francisco ou José”. E entregou-se por inteiro às causas desse Cristo com rosto, vida e dores de povo.

     

    Texto de homenagem
    a um comunicador

    Faz oito anos que Dom Helder Camara deu por encerrada a missão. Morreu às 22h20 do dia 27 de Agosto de 1999. Nordestino de nascimento, ao Nordeste voltou em meados de 1964, para assumir a arquidiocese de Olinda e Recife. E assim falou no primeiro encontro com a multidão
    que o aguardava, em praça pública: ”
    Aqui, neste santuário de sol, o Cristo se chama João, Francisco ou José”. E entregou-se por inteiro às causas desse Cristo com rosto, vida e dores de povo.

    Dom Helder Camara viveu noventa anos. Fisicamente, porém, sempre foi um homem frágil. Quando o conheci, na cidade do Recife, teria ele 55 anos, a fragilidade transparecia no corpo franzino. Magérrimo, sofria de artrites, ou algo parecido, e tomava cortisona para suportar as dores, das quais jamais se queixava. Por causa das dores, pouco dormia de noite.

    As fadigas da insônia pareciam tolher-lhe o corpo. Até o olhar, que fulgurava quando falava às platéias, perdia viço sob as pálpebras cansadas, no convívio rotineiro do dia-a-dia. Mas aqueles olhos claros, de tons azulados, sempre se reacendiam quando as conversas envolviam temas e cúmplices da luta guerreira pelo desenvolvimento com justiça social.

    Entre os cúmplices que com ele melhor partilhavam idéias e projetos havia vários jornalistas, que sempre foram interlocutores privilegiados.  E as conversas mais importantes não aconteciam em torno de mesas, mas em caminhadas pelas estreitas alamedas do pomar do palácio episcopal, para onde dom Helder levava pelo braço os visitantes mais confiáveis, mais estimados ou mais importantes, por causa das informações e idéias que traziam ou podiam levar.

    Nas salas do palácio, nas alamedas do pomar ou nos encontros estratégicos, de grupos fechados na casa de alguém, estivesse o bispo de pálpebras caídas, abatido pela fadiga, ou com o olhar aceso que dava vigor às palavras, o que se falava com D. Helder sempre envolvia a luta pela libertação do povo, que na teologia do bispo vermelho dava rosto e identidade ao Cristo.

    Que povo?

    O Francisco, o João, o José, vítimas da injustiça, da opressão, do desemprego, do analfabetismo, da fome, das endemias. Ameaçados pela desesperança.

    Ah! Como dom Helder temia que o povo sofredor perdesse a esperança! Nas convicções que o sustentavam, sem esperança não haveria luta nem motivo para lutar. Por isso pensava e dizia: “Quando sonhamos sozinhos, é só um sonho; quando sonhamos juntos, é o início de uma nova realidade“.

    Jamais faltou gente ao redor de dom Helder para partilhar sonhos. Que sonhos não eram, mas ações de esperança. E a frase, guardada pela memória do relato jornalístico, faz a definição mais bela, mais precisa, do conceito esperança.

    A força multiplicadora dessa esperança iluminava em dom Helder o sorriso quase permanente que contagiava os interlocutores. Da energia fantástica dessa esperança vinha o fogo que lhe incendiava a oratória, nos púlpitos do mundo – e então, para acrescentar sentidos às palavras e aos gestos, brilhavam os olhos claros, translúcidos, que as pálpebras cansadas inutilmente teimavam em esconder.

    Quando dom Helder Camara agia no mundo como mestre e lutador da palavra, aquele corpo magro, pequeno e doente, alongava-se pelo gestual ao mesmo tempo imponente e natural. E impunha-se às platéias, tornava-se ferramenta vigorosa a serviço da discursividade magicamente interativa.

    Ouvi dom Helder Camara diversas vezes, em homilias, nos altares de pequenas igrejas das periferias pobres do Recife, e em conferências, nos salões e anfiteatros do mundo económico, político, cultural ou acadêmico do Brasil. Vivi até uma experiência inesquecível, quando, com mais dois colegas, o entrevistei num programa de televisão no qual se discutiam as contradições do Nordeste brasileiro. Ele tomou conta do programa, usou genialmente a câmera como janela aberta para o mundo. E nos incluiu na platéia.

    Também o conheci na intimidade de reuniões onde se decidiam ações estratégicas em prol do povo nordestino e até em encontros mais abertos, informais, de amigos reunidos em torno de mesas recheadas de petiscos. No convívio informal, ele se parecia com a gente, nas dúvidas, nas inquietações, e, quando era o caso, apreciando bons vinhos e bons queijos em ambientes intelectuais, ou partilhando sabores fortes em confraternizações operárias.

    ***

    O dom Helder que conheci, admirei e estimei era um homem frágil e manso. Precisava dos amigos. Mas foi também um ser humano extraordinariamente forte, poderoso, capaz de aglutinar legiões para as tarefas da justiça social, da solidariedade, da liberdade, da dignificação humana.

    Poderoso, sim. Tinha o poder da simplicidade, da pobreza assumida como valor – simplicidade e pobreza simbolizadas na cruz episcopal que usava, de madeira, quase tosca, que algum artesão de mãos calejadas deve ter feito a canivete.

    Esse poder, o da simplicidade e da pobreza, servia apenas para o testemunho. O poder que fazia questão de exercer, para intervir no mundo, e com o qual assombrava as elites dominantes, era o poder da palavra, o que significa dizer, o poder das idéias bem proclamadas.

    Diante de platéias ou de multidões, foi um comunicador fascinante. Mas só pela difusão do discurso jornalístico sua palavra alcançou o mundo e o perturbou.

    (Texto extraído do livro Linguagem dos Conflitos, de Manuel Carlos Chaparro – Coimbra, Minerva Coimbra, 2001)

    – Veja outros textos na coluna “Em jeito de crônica

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