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Em Jeito de Crônica

  • Honestidade em jornal começa pela diagramação

    Publicado por Carlos Chaparro em 25/02/2016

    Honestidade em jornal
    começa pela diagramação

    A sedução que o jornal impresso exerce sobre quem o compra é, essencialmente, de natureza visual. Tudo no jornal impresso adquire forma e dinâmica de imagem, numa lógica de comunicação em que artes e técnicas se articulam em movimentos estimuladores de impulsos de escolha e busca dos textos, por parte dos leitores. Para o sucesso das interações imediatas. Porém, a relação com o “outro” tem de ser tão provocadora de expectativas quanto honesta na correspondência às expectativas criadas.

     
    Emoção, sim, mas sem engodos

    A sedução que o jornal impresso exerce sobre quem o compra é, essencialmente, de natureza visual. Tudo no jornal impresso adquire forma e dinâmica de imagem, numa lógica de comunicação em que artes e técnicas se articulam em movimentos estimuladores de impulsos de escolha e busca dos textos, por parte dos leitores. Para o sucesso das interações imediatas.

    Hoje, os profissionais e artistas da criação gráfica já dispõem de conhecimentos devidamente experimentados, que lhes permitem tirar vantagens dos condicionamentos que ordenam os acordos estéticos e os costumes culturais que levam o leitor – o “outro” – à escolha, à apreensão e à decodificação das mensagens jornalísticas impressas. Os conhecimentos acumulados e experimentados já permitem saber, com relativa segurança, o que pode ou não funcionar nas soluções gráficas.

    Como se trata de uma atividade tocada também pela arte, as “leis” da sua lógica tão eficazes são para a obediência quanto para a transgressão. Desde que jamais se perca de vista que a criatividade gráfica não se constitui objetivo em si mesmo.

    Leitor não compra jornal para apreciar desenho gráfico, mas para ser bem informado sobre o que lhe interessa. E aí está definido o papel da criatividade gráfica: evidenciar ao leitor o que lhe interessa e produzir estímulos comunicativos que facilitem o encontro com a mensagem.

    ***

    Falo de uma especialização que a cultura jornalística brasileira há mais de meio século chama de diagramação, em outros países também conhecida por maquetagem. Com a sofisticação que os modernos recursos de software agregam a esse ramo do jornalismo, talvez os termos antigos devessem ser substituídos por criação gráfica ou desenho gráfico.
    Mas os recursos modernos da criação gráfica para pouco ou nada servem se a preocupação do artista for apenas a de fazer um jornal bonito, para o prazer de “ser visto”. O impacto estético da apresentação gráfica deve estar a serviço do sucesso da interação, que alcança o seu ápice na leitura do texto.

    Porém, a relação com o “outro” tem de ser tão provocadora de expectativas quanto honesta na correspondência às expectativas criadas.

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    O argentino Eliseo Veron, conhecido cientista da linguagem, propõe em seus estudois que a mensagem jornalística impressa apresenta-se ao leitor na articulação de três séries visuais: as Séries Visuais Verbais, formadas pelas manchas “da colunagem”  do texto; as Séries Visuais Para Verbais, constituídas pelos títulos, cujos valores de objetividade e subjetividade de sentidos e intencionalidades, mais do que na frase, estão na significação visual da definição gráfica – tamanho de letra, por exemplo; e as Séries Visuais Não Verbais, pelas quais respondem as fotos, as ilustrações e as sínteses infográficas. (ver “Ideologia y Comunicación de masas en la semantización de la violencia política”, in Lenguaje y Comunicación Social, Buenos Aires, Nueva Visión, 1971, pp. 146-147”)

    A criatividade competente está na capacidade de articular as séries visuais, em combinações de complementação e/ou integração, para uma atribuição de sentidos jornalísticos, que facilite a relação interlocutória com o leitor. É um diálogo inteligente que não rejeita a emoção, indispensável na ativação do interesse e da percepção. Mas sem engodos de falsas embalagens. Porque, nesse diálogo de códigos e decodificações visuais, o que mais importa é a honestidade, no “anunciar” da mensagem.

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    Editores e criadores gráficos que não se preocupam com isso são  trambiqueiros do jornalismo. Começam a mentir pela diagramação.

  • Notícia, propriedade de quem?

    Publicado por Carlos Chaparro em 25/02/2016

    Notícia, propriedade de quem?

    Na edição de 7 de julho da Folha, Clóvis Rossi ocupou o seu espaço cativo na página 2 do jornal com uma história que propicia interessante discussão sobre um tema inesperado, e que poderíamos resumir na seguinte pergunta: terá um jornal, qualquer jornal, direito de posse sobre as notícias do mundo? 

     

    Uma discussão
    que interessa fazer

    Dos recortes de jornais que guardo para eventuais usos futuros, reli hoje um sobre o qual me deu vontade de tecer e trocar algumas idéias. E desde já agradeço a Clóvis Rossi pela colaboração que me dá, pois trata-se de um artigo dele o texto do recorte que resolvi comentar.

    Na edição de 7 de julho da Folha, Clóvis Rossi ocupou o seu espaço cativo na página 2 do jornal com uma história que propicia interessante discussão sobre um tema inesperado, e que poderíamos resumir na seguinte pergunta: terá um jornal, qualquer jornal, direito de posse sobre as notícias do mundo?

    Quem lê Clóvis Rossi certamente se lembra que, naquele sábado, em texto enviado de Bruxelas, ele transferiu aos leitores da Folha a inusitada questão que o jornal belga Le Soir colocara dias antes ao seu público, no alto da primeira página: “Um jornal como o nosso deve ainda cobrir um evento como a Volta da França? Não abusamos de nossos leitores ao relatarmos extensa e profundamente feitos (?) de corredores que, um ano depois, caem como moscas, como suspeitos de doping ou comprovadamente dopados?”

    Pelo que o articulista da Folha nos relatou, o Le Soir resolveu rapidamente o seu drama de consciência. Por boas razões, penso eu, pois a Bélgica tem história própria, importante, no ciclismo europeu. O ciclismo é uma paixão belga. E em editorial assinado por um dos chefes de redação do jornal, o Le Soir anunciava a decisão de continuar a acompanhar com o habitual vigor jornalístico o Tour de France,  por considerar que “seguir bem de perto a Volta seria o melhor a fazer para impedir que ela saia da rota”.

    Como se fosse possível deixar de noticiar a comopetição esportiva mkais importante da Europa…

    Vamos admitir (e essa é a minha opinião) que o Le Soir tenha encontrado, e apenas isso,  uma forma esperta de motivar a atenção dos seus leitores para a cobertura de grande porte que certamente faria da competição mais importante do ciclismo mundial. Mas, apesar do viés moralista que lhe foi dado, a questão levantada pelo jornal contém um tema merecedor de boa discussão. Porque, afinal, a questão proposta era esta: deve um jornal sério perder tempo e gastar energias com os lados podres, e sem remédio, do mundo em que vivemos?

    Eis, aí, caros amigos interessados em jornalismo, algo que realmente vale a pena discutir, nem que seja na informalidade das rodas de conversa livre, entre amigos, nos bares de fim de tarde. Cuidado, porém, com a esparrela do argumento moralista que recheia a questão, tal como foi proposta pelo Le Soir. Porque o xis da questão não está no julgamento moral dos acontecimentos e dos seus protagonistas.

    O xis da questão está em saber se a perspectiva do jornalismo e dos jornalistas deve ser a da LIBERDADE DE IMPRENSA, que lhes garante e justifica o poder de, a seu bel prazer, noticiar ou deixar de noticiar os fatos da atualidade; ou se o que está verdadeiramente em jogo é o DIREITO Á INFORMAÇÃO, prerrogativa que não pertence aos jornalismos nem aos jornais, por se tratar de um direito fundamental dos cidadãos.

    Eis aí, sim, o verdadeiro xis da questão.

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Curso de jornalismo – aula 1

Aula 1 - Fundamentos introdutórios

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